Adebayo Vunge “Precisamos de renovar o nosso compromisso sério em prol do bem-estar dos povos africanos”

A resolução dos problemas do País terá de envolver “reformas impopulares”, que precisarão de ser entendidas e apoiadas por todos, alerta o jornalista Adebayo Vunge. O também autor de Pensar Áfricaalerta que o continente deve focar-se em metas e procurar os apoios certos para progredir.

261
COMPARTILHE

Por Caco Ferraz fotos Njoi Fontes

Como surgiu a ideia de escrever o livro Pensar África?

Escrever e pensar África é um acto contínuo e não isolado ao livro. Escrevi durante os anos em que estive entre Londres e Paris algumas notas para oJornal de Angola, e esta foi a base de partida. Por outro lado, algumas viagens e também literatura e interacção com alguns intelectuais e jornalistas pan-africanistas em França atiçaram o interesse pelo tema.

No prefácio, o ex-primeiro-ministro de Cabo Verde valoriza-o por haver pouca literatura sobre o tema entre os PALOP…

De uma maneira geral, a epistemologia sobre África está muito avançada entre os estudiosos francófonos e alguns anglo-saxónicos. Mas há já alguma produção interessante entre nós, e mesmo em Moçambique. Talvez falte publicidade. Por outro lado, há algumas questões socioculturais e de identidade decorrentes da nossa história. Eu próprio apenas percebi a dimensão do que é ser africano com o curso de História de África, ministrado pelo professor Boubakar Keita, no ISCED, e reforcei-o na minha estada em Paris.

Definitivamente, precisamos de assumir esta identidade e reforçar esta parceria. Se o que compramos em Portugal podemos comprar na África do Sul, com ganhos económicos, porque não fazê-lo? E não podemos ater-nos apenas ao prisma afro-pessimista. Há processos de transformação muito dinâmicos que merecem a nossa atenção. Aliás, o próprio José Maria Neves foi um destes actores, absolutamente fundamentais para a viragem que assistimos em Cabo Verde. Tive imensa honra em tê-lo a assinar o prefácio do livro.

Ao abordar um continente que encara dificuldades com a integração regional e défices de infra-estruturas, qual a sua avaliação e previsão de médio e longo prazo?

África é um continente bastante dinâmico, de assimetrias, onde encontramos realidades muito díspares. Veja que a África do Sul se encontra na mesma região que o Maláui, ou que o Ruanda convive com a RDC. Obviamente que esta diversidade social, económica e política é um grande desafio, na medida em que entendemos que o desenvolvimento de África passa pela opção de maior integração económica, política e social entre os países das diferentes sub-regiões. A estabilidade depende muito da maturidade de cultura democrática das lideranças e do imperativo de defesa absoluta do interesse nacional em detrimento do interesse pessoal ou de grupos. Os países não podem mais estar reféns das suas lideranças e, para o efeito, precisamos de ter instituições fortes. Vejamos as crises eleitorais na RDC e no Quénia. Mas o continente tem outros desafios económicos, sociais e políticos que deve enfrentar com seriedade.

Quais apontaria?

Aimé Cesaire dizia que “uma civilização incapaz de resolver os seus problemas é uma civilização decadente”. Um dia, o afro-pessimismo pensou assim, que nós, africanos, éramos incapazes, mas o tempo encarregou–se de provar o contrário. Estamos no combate ao subdesenvolvimento e temos diante de nós ingentes desafios. O combate ao fluxo ilícito de capitais, a fuga de cérebros e a escassez de infra-estruturas são os mais sérios entre estes. Adicionaria a solidez e maturidade das próprias instituições dos Estados.

A defesa da lei e da democracia, no lugar de pessoas que pretendem eternizar–se no poder, sem que isso se consubstancie numa melhoria das condições de vida da população.

É eticamente censurável o que vemos acontecer no Ruanda, onde o presidente também alterou a Constituição para se manter no poder. Mas do que o Ruanda conheceu em 1994 e o que vimos ter sido feito até hoje, sob a liderança de Paul Kagame, é justo que nos questionemos sobre a sua intenção de preservação no poder. Foi um dilema. Situação diferente é a que sucede na RDC com o presidente Kabila, cujo mandato não trouxe nada de novo. São estes contornos que nos levam a questionar os modelos da própria democracia em África.

E como olha para a União Africana (UA)?

 

O grande sonho de Nkwame Krumah continua meramente intencional. Esperávamos muito mais da UA, no sentido de se solidificarem as instituições ou ainda em prol da estabilidade política, crescimento económico e bem-estar das populações. A agenda África 2063é uma carta importante sobre as aspirações da transformação do continente que deveria servir de bússola. Mas agora, como no passado, a UA não tem força, estratégia nem, nalguns episódios, legitimidade para impor e acompanhar a transformação estrutural do continente. Reconhecendo estas debilidades, alguns chefes de Estado e intelectuais africanos têm vindo a trabalhar no sentido da revisão da organização, de modo a torná-la mais expressiva no contexto dos Estados.