“Toda a gente que se forma em agro-negócio tem trabalho”

O potencial do agro-negócio é muito elevado, mas o seu desenvolvimento implica que haja muito conhecimento, alerta Marcelo Paladino, especialista neste sector e professor da Escola de Direcção e Negócios da Universidade Austral, na Argentina.

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Por Ricardo David Lopes fotos Carlos Muyenga

Argentina iniciou há cerca de 20 anos um percurso de forte aposta no desenvolvimento do agro-negócio. Quais foram as principais dificuldades?

Uma delas, basicamente, foi o problema do custo de financiamento, do capital, que por diversas razões sempre foi muito elevado na Argentina. Por outro lado, percebeu-se que era preciso aproveitar o momento para levar a cabo uma inovação tecnológica muito forte, envolvendo novas técnicas de tratamento dos campos, aplicando a técnica do plantio directo, que permite reter mais humidade e nutrientes nos solos, e melhorar a produtividade.

Como ultrapassaram o problema do custo do capital?

Em boa parte, foi resolvido pelos privados, pelos empresários, através da criação de associações muito fortes, que permitiram alcançar economias de escala, reduzindo o impacto desse problema.

Porquê?

Porque o campo é muito competitivo. Mas a indústria em geral teve e tem tido apoios, porque ainda não se tornou sustentável em todas as dimensões. Por exemplo, as indústrias de cimentos ou petrolífera não têm necessidade de receber incentivos, porque estão mais desenvolvidas e têm grande dimensão. Aliás, no governo anterior, tivemos grande contestação porque se decidiu repor os impostos sobre as exportações.

Ao fim de quanto tempo surgiram os primeiros frutos da aposta no agro–negócio?

Qualquer processo de desenvolvimento tem os seus timings, sobretudo quando há problemas circunstanciais que afectam esse esforço, nalguns sectores. E, depois, há afectam os processos, como a falta de estradas, vias-férreas, energia, água… Os problemas circunstanciais e as restrições podem resolver-se de forma bastante rápida, se houver uma decisão política nesse sentido.

O Estado teve de investir em infra–estruturas?

Ao nível das infra-estruturas, o investimento deve ser público e ter em conta os projectos, ou seja, as áreas económicas que queremos desenvolver primeiro.

Mas isso ocorreu?

Não. Há ainda hoje falta de infra-estruturas e, durante muitos anos, sobretudo até aos anos 90, foram-se degradando as condições de transporte na ferrovia, usando-se mais o camião. Isso começa a mudar, há a noção de que o transporte de mercadorias por estrada é muito mais caro – e tem mais riscos – do que por ferrovia.

O associativismo entre empresários deve ser seguido em Angola?

Nem sempre os interesses são coincidentes, apesar de tudo…Esse processo acaba por ocorrer. Cada vez se nota mais que, para causarmos impacto, não devemos trabalhar sozinhos. E, no agro-negócio, sobretudo, os empresários devem assegurar-se de que não estão sozinhos. Seria suicida. Devem funcionar como uma rede.

Foi necessário investir em formação?

A Argentina tem uma tradição muito forte, em termos universitários, ligada ao campo, temos muito boas escolas, quer privadas, quer públicas. Há escolas de agronomia e veterinária, por exemplo, em todo o país. Foi fácil incrementar a formação nestas áreas. Há muitas instituições do Estado e privadas que geram conhecimento.

E há muita gente a fazer investigação em agro-negócio?

Sim, desde logo nas faculdades de agronomia e veterinária, e depois há muitas instituições privadas envolvidas.

Quais as maiores dificuldades, nos dias de hoje, que o agro-negócio enfrenta no mundo?

Variam com os locais. No caso do agro–negócio de que falamos em Angola, que de alguma forma é ‘generalista’, não é fácil identificar todas as restrições, mas, desde logo, em geral, há uma dificuldade, que tem que ver com os custos do capital, da tecnologia e dos insumos. Outro problema tem que ver com a criação de escala. Depois, há muitos défices administrativos. No fundo, muitos dos obstáculos ao desenvolvimento estão fora das empresas, e não dentro – legislação, regulação, acordos comerciais.