Interpretação de textos, tradições e obras culturais

A produção e o consumo das obras culturais, enquanto artefactos e criações imaginárias, exigem sempre uma complexa teia de actos e operações em que conta a experiência sensorial, ao abrigo de uma actividade cognitiva

276
COMPARTILHE

Podemos iniciar a conversa com interrogações acerca das partes que integram o universo das obras culturais. Começo por considerar que as obras culturais são constituídas por artefactos tangíveis e criações imaginárias intangíveis que permitem compreender a nossa existência colectiva como humanos, bem como as relações sociais que se estabelecem na nossa comunidade e as posições que as mulheres e os homens mantêm perante a natureza. O que dá sentido às obras culturais é este seu carácter de mediação que assegura a relação incindível dos humanos com a paisagem natural. Esta é a razão que torna necessária a compreensão por parte daqueles que se propõem conhecer os significados das obras culturais cuja estrutura é sempre determinada pela classificação realizada através de grupos e forças sociais que operam no campo cultural em que emergem.

A produção e o consumo das obras culturais, enquanto artefactos e criações imaginárias, exigem sempre uma complexa teia de actos e operações em que conta a experiência sensorial, ao abrigo de uma actividade cognitiva. Os referidos actos e operações encontram a sua expressão em duas palavras: interpretação e compreensão. Por essa razão, a definição da obra cultural pode ser facilitada através da sua identificação com o texto porque engloba objectos de arte, obras de arte e objectos estéticos. A dimensão reflexiva sobre as problemáticas que daí derivam justifica a importância das teorias da textualidade que procuram explorar o carácter convencional e cultural de qualquer texto. Os críticos literários e os filósofos, entre os quais africanos, ocupam‑se de matérias como estas. Assim, com alguma unanimidade, por texto entende‑se um conjunto de signos ou elementos usados como signos, intencionalmente seleccionados e organizados por um autor que em determinado contexto transmite significados específicos destinados a um público concreto.

Mas a classificação dos textos permite verificar a existência de uma diversidade tipológica que não se esgota no texto literário, por exemplo. Pode‑se recorrer a dois critérios, a modalidade e a funcionalidade. De acordo com a perspectiva que valoriza a função, os textos distinguem‑se em linguísticos e culturais. Para o filósofo cubano Jorge J. E. Gracia, os textos culturais podem ser analisados em doze categorias. Os textos jurídicos, literários, filosóficos, científicos, históricos, políticos, pedagógicos e religiosos são apenas alguns deles. Ora, a interpretação, a compreensão e a discernibilidade dos textos pressupõem necessariamente uma geografia cultural, na medida em que todos os textos remetem para certas tradições culturais.

Como reivindicar a pertença a uma tradição jurídica, religiosa, histórica ou literária universal, quando as tradições constituem a territorialização das experiências culturais? Todo o leitor ou intérprete é membro de uma determinada comunidade interpretativa, já que a cada campo cultural corresponde sempre uma tradição hermenêutica regional. Por isso, ler e interpretar autores africanos, orientais ou ocidentais pode ser apenas uma condição necessária para explicar e comentar obras num contexto institucional em que predominem constrangimentos específicos. Deste modo, confundi‑los em termos absolutos com expressões da tradição universal, anulando o seu carácter particular, é uma forma tendenciosa de reconhecer a hegemonia de certas culturas num mundo de diversidade e diferenças.

A existência de uma tradição hermenêutica regional não deixa perder de vista

 

COMPARTILHE