“O rosto do MPLA é o do Presidente da República”

Vicente Pinto de Andrade confessa que nunca esteve tão optimista em relação ao País e, aos 67 anos, sente-se rejuvenescer neste novo tempo. O deputado do MPLA acredita que JES deixará a política activa em 2018, e defende que o ex-Presidente não deve ser empurrado.

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Por Ana de Sousa fotos Njoi Fontes

Vive-se um ambiente de distensão e ausência de crispação política. A oposição está sem agenda?

A oposição tem de se adaptar à nova dinâmica criada pelo Presidente João Lourenço. A rapidez e a coerência que tem demonstrado na tomada de decisões críticas…

E essa rapidez e coerência surpreenderam quem?

A mim não me surpreenderam, porque o conheço há muitos anos. O João Lourenço é uma pessoa que fala muito pouco, mas que age. Mas estamos a desviar-nos da primeira questão. É óbvio que a oposição está sem agenda política. Tem de se reconfigurar, porque muitos dos pontos que apresentava como as suas inquietações estão a ser assumidos por João Lourenço. O discurso que foi feito durante a campanha em relação a temas como a corrupção não foi um mero discurso. É bom que haja sempre oposição, mas é bom que ela adapte o seu pensamento à realidade, de uma forma em que assinale os erros, mas apresente, também, soluções.

Considerando que o MPLA continua a ser o único partido com responsabilidades governativas em Angola, e que o problema da corrupção é um combate que tem de ser travado, pode haver algum incómodo da parte do partido, ou de algumas figuras do partido, com esse discurso contundente por parte do Presidente?

Certamente que há pessoas que se sentem incomodadas. Porque há pessoas que estão envolvidas em situações de corrupção. O nosso modelo económico e político, no início, na independência, era um modelo de partido único, e uma economia centralizada e planificada. E a transição de uma economia centralizada e planificada para uma economia aberta tem muitos riscos, custos e benefícios. Do mesmo modo, a transição de um regime de partido único para um regime em que há competição política. Há riscos para quem governa e para quem quer governar. Aquilo a que estamos a assistir, hoje, é a uma maior abertura, a uma maior competição, que põe a nu aquilo que, num regime fechado, não é possível pôr a nu. Depois, há a questão económica. Já tivemos uma actividade agrícola familiar importante, significativa. Uma realidade que desapareceu com a colectivização, com a estatização dos meios de produção. Deixou de existir.

E temos ainda o pecado original da ‘acumulação primitiva de capital’?

É suposto que o Estado tenha uma intervenção na dinamização da economia. Mas há modelos diferentes daqueles que foram adoptados em Angola. O apoio à iniciativa privada, à iniciativa individual, não implica, necessariamente, que resulte em corrupção. O acesso por parte dos indivíduos que tenham capacidade empresarial para aceder ao crédito, ao crédito claro, não significa corrupção. O problema é quando as pessoas utilizam mecanismos que não são os melhores para aceder ao dinheiro – a tal falta de transparência. Isso é que é condenável. A criação de um empresariado angolano dinâmico tem de ocorrer.

Mas ainda não ocorreu?

Nos últimos anos, aquilo a que assistimos é a uma confusão, a uma coabitação entre o que é o peso económico e o peso político. Mas, considerando todas essas nuances, há quem diga que não existem ‘virgens’. E, se não existem ‘virgens’, quais os custos desse combatem à corrupção? E estamos a falar de uma elite que se criou neste contexto pouco claro e transparente…n A corrupção está clara na sua definição. Lord Acton disse: “Todo o poder corrompe, e o poder absoluto corrompe absolutamente.” Qualquer poder que não tenha o contrapeso, o contrapoder, naturalmente, corre o risco…

Vivemos em Angola uma situação de poder absoluto?

Não. Falamos aqui do poder absoluto no sentido em que as pessoas têm uma capacidade de influência quase ilimitada, querem e conseguem facilmente. Não. As coisas têm de ser conseguidas com trabalho.

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