Os próximos 100 dias do PR

Estamos atentos à luta contra a impunidade e a corrupção, esperemos que não haja excepções nessa luta (filhos e enteados), porque quem mata uma criança é tão culpado como quem mata 100.

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Por Rui Malaquias/ Economista

Caro Presidente: é com prazer que lhe reconhecemos o mérito de ter tido os primeiros 100 dias positivos, com limpeza exemplar da casa, com a arrumação das peças no tabuleiro à sua maneira, criando as condições para que as próximas jogadas sejam exitosas e rapidamente se chegue ao xeque-mate. Os angolanos querem um xeque-mate à pobreza, à impunidade, à corrupção e a todos os outros malefícios que vivem na pele, e o Senhor Presidente terá de o fazer em tempo recorde, pois, como deve saber, apenas
terá um jogo de quatro anos e alguns meses, portanto, sem tempo de errar ou tentar acertar. Por isso, esperemos que esteja ao nível de Anatoly Karpov e Garry Kasparov.

Nestes próximos 100 dias, precisamos de muitas coisas, mas, principalmente, precisamos que confirme com a equipa económica se os planos e programas que nos são apresentados estão sincronizados, ou seja, que o Plano Intercalar (Outubro 2017 a Março 2018), o Plano de Estabilidade Macroeconómica e o Orçamento Geral do Estado são um só e não um emaranhado de teorias e intenções.

Também já entendemos que vamos ter de apertar mais o cinto, pois a banda cambial do Dr. Massano vai tirar-nos o sossego, as importações vão ficar mais caras e os nossos salários não vão acompanhar a corrida, e hoje, para nos aliviar a garganta, só mesmo um empurrãozinho para cima no preço do Brent – isso já entendemos.

Mas diga ao Dr. Massano para usar bem a banda, diga-lhe para aplicar taxa de câmbio mais baixa (da banda) para aqueles produtos que nos vão fazer depender menos das importações (sementes, tractores, medicamentos, etc.). A banda também serve para isso, para tratarmos de forma diferente o que é diferente, e assim, quem quiser importar mais um Lexus ou um Jaguar, que fique na parte alta da banda, pois estes podem mais.

Diga ao ministro das Finanças que ele precisa de ser mais assertivo na despesa, ter como ‘Bíblia’ aquele calhamaço de despesas certas e receitas quase incertas chamado Orçamento Geral do Estado, e de acompanhar e fiscalizar os gastos das unidades orgânicas, para ter a certeza de que o que está inscrito é real.

Diga ainda à sua equipa económica para não trazer a cartilha completa do FMI, pois não podemos vergar um país à luta pela redução do défice. Não se reduz o défice apenas com cortes cegos, como defendem o FMI e o Banco Mundial, pois estas teorias, austeras, por demais ocidentalizadas, também não deram efeitos positivos lá fora.

Acredite que, ao invés de cortar cegamente, deveríamos preocupar-nos em gastar melhor, porque este sempre foi o nosso problema: gastamos muito, mas a receita nunca cresceu. É preciso compreender que a receita não cresce de forma mágica, existirá mais receita quando houver boa despesa, pois a má despesa agrava o endividamento e, objectivamente, reduz e posterga a receita A experiência já nos mostrou que o problema nunca foi a receita. Caso tentem convencê-lo do contrário, o problema está na despesa, que sempre foi mal estimada e pessimamente executada. Como prova do que dizemos,de 2014 a 2017, à medida que a despesa reduzia (pela ausência de crescimento), a receita deslizava quase cinco vezes mais. Isto mostra que a despesa que era feita nunca gerou a receita esperada.

Claramente, dá para ver que sempre se gastou mal, não estávamos a fazer despesa para ver crescer a receita, ou seja, não estávamos a investir no amanhã, estávamos a gastar hoje sem pensar no amanhã. É importante colaborar e aprender com FMI, mas há que saber dizer chega quando tiver de ser, pois a austeridade feita unicamente pelo lado da despesa nunca deu certo – e mais: é ir contra o que precisamos hoje, que é um crescente investimento público em infra-estruturas para abraçar o sector privado. Esperemos que não esteja com receio de fazer mudanças no seu Executivo, porque ainda agora o nomeou. Eventualmente poderá estar a pensar que acharemos que se enganou, mas muito pelo contrário: o PR anterior teve 38 anos para pôr o País a funcionar, e V. Exa. tem menos de 1/7 deste tempo. Então, as suas substituições deverão mesmo ser mais rápidas e assertivas. Para nós, 100 dias está de bom tamanho.

Agora parece que todos os hospitais estão sem condições, as estradas estão todas estragadas, e as ravinas estão a ‘comer’ o País todo. Nota 20 para a comunicação social estatal e para os titulares da Saúde e da Construção, que estão a dar o seu melhor para resolver estas questões. É desta atitude que precisamos.

Ficámos muito receosos quando vimos a equipa económica a transpirar para explicar ao País o que iria fazer com os nossos impostos e com os créditos do nosso petróleo. Não precisamos de ser experts para afirmar que alguns membros da equipa económica estão exaustos e não vão acompanhar a dinâmica que se impõe, portanto, defendemos, claramente, a sua substituição, pois achamos que gente competente é que não falta no seu Executivo. Vimos na entrevista colectiva que deu aos nossos jornalistas que, afinal,
todos estamos a aprender com os novos ventos, mas também lhe garantimos que queremos mais, e nunca mais vamos aceitar a mediocridade. Precisamos que fale mais connosco, que diga o que pensa e que caminho o País vai seguir. Acreditamos que os nossos jornalistas vão estar mais bem preparados para ser a nossa voz.

Estamos atentos à luta contra a impunidade e a corrupção, esperemos que não haja excepções nessa luta (filhos e enteados), porque quem mata uma criança é tão culpado como quem mata 100. Os impunes e delapidadores do erário público estão aí, as evidências também estão em hasta pública, então, V. Exa., estamos à espera de que se faça justiça para dar exemplo, até porque foi V. Exa. que nos relembrou que “ninguém é rico ou poderoso demais que não possa ser punido, e ninguém é pobre demais que não possa ser protegido”. Auguramos o melhor para os próximos 100 dias e estaremos aqui para fazer a avaliação a cada 100 dias de governação, porque também V. Exa., em campanha, pediu para que o acompanhássemos e que esta fosse uma governação participativa. E é exactamente o que pretendemos: uma Angola melhor em que cada um se sinta parte deste processo.

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