Patriotismo e outras virtudes necessárias

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Por Luís Kandjimbu

Escritor e professor universitário

Há 40 anos, tive uma das primeiras oportunidades de compreender o sentido do patriotismo como virtude, por ocasião da recruta militar, após a incorporação nas FAPLA.

Mas patriotismo é um termo associado à coragem que passou a fazer parte do meu vocabulário, quando, em meados dos anos 60, ouvi meu pai dizer que eu era corajoso por ter suportado o cacimbo de Junho, mergulhando nas águas do rio Kunene.

Patriotismo e coragem estão aqui conotados com experiências que remetem para os processos de formação do carácter do indivíduo. Produzem-se ecos da memória. Convocam-se narrativas, como aquelas que permitem conhecer a história do nacionalismo angolano com a única finalidade de justificar o nosso sentimento de pertença a este País, que é também comunidade, chamado Angola. O patriotismo é uma virtude intrínseca aos humanos desde que se parta da sua experiência de cooperação com outros na sua vida em comunidade. Situa-se aí o ponto de partida para a justificação do sentimento de pertença a uma comunidade que se define pela sua territorialidade. O patriotismo exprime esse vínculo de lealdade que se nutre de histórias pessoais e colectivas. O vínculo de lealdade verifica-se, por exemplo, no âmbito das relações familiares, da amizade, da filiação associativa ou religiosa.

O grau mais elevado em que se manifesta o patriotismo, enquanto fenómeno moderno, é o da identidade e lealdade nacional. A raiz da tematização encontra-se no lexema pátria, derivado do latim pater, uma forma de masculinização do lugar em que se nasce. Esse sentimento de lealdade que caracteriza o patriotismo não inibe que os defensores do cosmopolitismo admitam a possibilidade de uma coexistência, podendo falar-se do patriotismo cosmopolita. Isto quer dizer que o patriota não se confina ao espaço de origem.

Ao argumentar sobre essa coexistência, há quem entenda que patriotismo e cosmopolitismo são mais sentimentos do que ideologias. Por isso, os cosmopolitas podem, ao mesmo tempo, ser patriotas, mas cultivando uma profunda lealdade à humanidade. Este é o ponto de vista do filósofo ganense Kwame Anthony Appiah.

O debate contemporâneo sobre este tema tem vindo a manifestar-se através das controvérsias que opõem comunitaristas a liberais. Isto é, de um lado os que defendem supremacia da comunidade e, de outro, os que defendem a proeminência do indivíduo e sua liberdade. Os filósofos africanos que têm vindo a distinguir-se pela intervenção directa nesse debate, Kwame Gyekye, Kwasi Wiredu, Dismas Masolo, Benezet Bujo, retomam a tematização do comunitarismo, à luz de uma filosofia moral, incorporando subsídios provenientes dos sistemas africanos de pensamento. Quanto a mim, o interesse do debate que opõe comunitaristas a liberais reside no facto de ele permitir descortinar projecções actuais do pensamento africano produzido no contexto dos processos de descolonização e das independências que se seguiram à II Guerra Mundial.

No mundo ocidental, o referido debate teve larga audiência académica, no início na década de 80, nos Estados Unidos da América, e alcançou o seu apogeu nos anos 90 do século passado. Um dos mais eficazes catalisadores desse debate foi o livro do filósofo norte-americano John Rawls, publicado em 1971, intitulado Uma Teoria da Justiça. Muitos comunitaristas criticam a perspectiva liberal de John Rawls, partindo do pressuposto de que a
comunidade é anterior à liberdade e à igualdade. Assim, discute-se sobre o que deve ter primazia na vida em sociedade: os valores da comunidade, a vontade da maioria ou a liberdade individual. Os que se opõem à perspectiva liberal são os defensores da preeminência dos valores de diferentes culturas e tradições.

Os liberais consideram o indivíduo como a figura central daquilo a que chamam “comunidade não-comunitarista”. O centro é o indivíduo, a autonomia da sua vontade e primazia das suas preferências.

Na perspectiva comunitarista, o debate torna-se compreensível do ponto de vista moral, na medida em que qualquer indivíduo pertence a uma comunidade, clã, família ou nação. É daí que qualquer cidadão herda deveres, expectativas correctas e obrigações. Trata-se de uma tradição de práticas concretas transmitidas ao longo de gerações por via dos processos de socialização primários e secundários.

No contexto africano, as teorias comunitaristas dão origem ao comunitarismo moderado, segundo o qual as estruturas sociais africanas permitem determinar tipos de comunidade tais como a etnia, a família alargada e nuclear, o clã, a linhagem, a aldeia. O comunitarismo moderado valoriza a relação indissolúvel entre o indivíduo e a comunidade.

Entretanto, a formação do carácter individual consolida-se através da educação moral, sendo a literatura e as narrativas históricas algumas das suas mais importantes fontes. Nas tradições morais africanas, os traços de carácter do indivíduo são hábitos morais que reflectem as qualidades morais apreciáveis pela comunidade. O sacrifício que se deve cultivar em defesa da comunidade é uma dessas qualidades. Hábitos, comportamentos e qualidades morais desta natureza constituem virtudes. Se a virtude é um hábito que estrutura o carácter, contrário do vício, ocorre a pergunta: O patriotismo pode ser uma virtude?

As respostas constituem sinais de uma reflexão sobre a virtude. Esta reflexão é que vai fazendo falta entre nós. Temos necessidade de uma ética das virtudes angolanas. Para tal, importa ter em conta alguns dos mais interessantes debates sobre o patriotismo como virtude, introduzido pelo filósofo moral britânico Alasdair MacIntyre, em 1984, na conferência proferida na Universidade de Kansas. Revelando-se como convicto comunitarista, MacIntyre refuta os argumentos da teoria moral liberal, sustentando que a “moralidade do patriotismo” assenta na pertença a uma comunidade social particular em relação à qual o indivíduo mantém uma lealdade incondicional.

Além disso, o filósofo moral britânico considera que o patriotismo apenas se torna possível no âmbito de um tipo de comunidade nacional em determinadas condições, pois a possibilidade de existência do agente moral tem lugar dentro de uma comunidade. A lealdade perante essa comunidade é um requisito fundamental. Para Alasdair MacIntyre, o patriotismo e as lealdades conexas constituem verdadeiras virtudes Portanto, no nosso actual contexto, o centro das atenções em matéria de moralização deve ser, antes de mais, o problema das virtudes, isto é, os traços de carácter a adquirir. Garantir que as gerações mais novas conheçam a nobreza das virtudes é um grande desafio para a nossa sobrevivência a longo prazo. Fornecer pistas para que os jovens compreendam os vários tipos de virtudes é outro imperativo. A vida boa e feliz exige posse de virtudes, tais como a honestidade, a generosidade, a lealdade, a caridade, a justiça, a coragem, a integridade, a humildade, a sabedoria, a gratidão, o trabalho árduo. É urgente e necessária uma ética das virtudes.

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