O mantra africano

Passados mais de 50 anos desde a primeira vaga dos processos de descolonização, a grande maioria dos cidadãos do continente-berço da humanidade vê as suas aspirações longe de serem concretizadas nos seus próprios países, e muitos deles partem, forçadamente, para outras latitudes ocidentais, para se realizarem. Os ideais do Panafricanismo(descolonização/libertação e integração dos africanos) não se traduziram ainda no politicamente vivido dos povos africanos.

223
COMPARTILHE

Por Gildo Matias José

África continua fundeada na tripla condição restritiva, como escreveu Mia Couto, um continente prisioneiro de um passado inventado por outros, amarrado a um presente imposto pelo exterior e, ainda, refém de objectivos e metas que lhe foram construídos por instituições internacionais que comandam a economia. Talvez esta realidade explique o bem colocado “paradoxo africano” pelo Presidente João Lourenço, no seu primeiro discurso durante a 30.ª Cimeira da União Africana, em Adis Abeba. Passados mais de 50 anos desde a primeira vaga dos processos de descolonização, a grande maioria dos cidadãos do continente-berço da humanidade vê as suas aspirações longe de serem concretizadas nos seus próprios países, e muitos deles partem, forçadamente, para outras latitudes ocidentais, para se realizarem. Os ideais do Pan-africanismo (descolonização/libertação e integração dos africanos) não se traduziram ainda no politicamente vivido dos povos africanos.

Há quem veja o nosso insucesso económico e social como uma consequência directa do longo e doloroso processo de colonização e dos subsequentes processos de construção das nações africanas, ocorrido em condições económicas, políticas, sociais e culturais herdadas da colonização. Todavia, não obstante a sua verdade parcelar, esta posição reproduz uma consequência circular que não só justifica erradamente o nosso presente mas, sobretudo, condiciona negativamente o nosso futuro. A resolução dos variados e estruturais problemas de África deve interpelar-nos e exigir a escolha de outros caminhos que permitam a construção de novas matrizes de comportamento e de capacidades transformadoras que permitam contrariar a inexplicável e intolerável condição da maioria dos países africanos. Os problemas dos Estados falhados, de instabilidade e conflitos, de pobreza extrema, das desigualdades sociais, das doenças epidémicas, do acesso à educação (entre outros), devem não apenas merecer uma formulação universal nos documentos estratégicos da União Africana, mas ser um compromisso nacional de todos os países para com os seus cidadãos. O que não for solucionado nacionalmente… muito pouco provavelmente será solucionado regionalmente.

É por isso que a reforma necessária da União Africana poderá cair, mais uma vez, em saco roto, se as elites africanas não se comprometerem nacionalmente com as aspirações dos seus povos.

 

COMPARTILHE