Há ou não há negócios nas cadeias?

O Vanguarda apurou que se fazem vários negócios nas prisões, muitas vezes com a concordância dos agentes prisionais. Mas o porta-voz do Serviço Penitenciário garante que não há comércio nas prisões angolanas.

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Por Líria Jerusa

Uma investigação do Vanguarda apurou que existe uma rede de comércio nas cadeias em Luanda, sendo que a maior parte das mercadorias por lá comercializadas é “facilitada” pelos próprios agentes dos serviços prisionais, através de negociações com reclusos e familiares.

As prisões, que têm como missão reeducar o cidadão e devolvê-lo, com valor acrescentado, à sociedade, têm, contudo, sido locais para a prática de negócios ilícitos. Segundo um recluso contactado pelo Vanguarda, que preferiu o anonimato, muitos presos pagam “gasosas” aos agentes para conseguirem os produtos que pretendem, cujo valor depende da mercadoria em causa. “Só é preciso ter o dinheiro ou influência. Fala-se com os agentes, e eles resolvem tudo com a família”, relata o recluso.“A nossa família entrega o dinheiro, eles vêm ter connosco, nós explicamos o tipo de produto que queremos, e eles fazem toda a gestão até o material chegar às nossas mãos.

Aqui dentro, fazemos a venda de forma normal, entre os presos”, acrescenta. O dinheiro arrecadado de forma ilegal é enviado, muitas vezes, para as famílias, para ajudar ao seu sustento. Serve também, por vezes, para financiar um advogado ou ajudar nos custos que as famílias têm com o recluso.

Um ex-recluso da Comarca Central de Luanda (CCL) – esteve preso sete anos – confidenciou ao Vanguarda que, dentro daquele estabelecimento, as vendas são feitas à luz do dia e na presença de alguns agentes, incluindo “cigarros, fósforos, colchões e estupefacientes, como liamba, cocaína, álcool e outros”.

“Existem, pelo menos, 16 portões que nos separam da vida lá fora, mas aqui dentro temos acesso a quase tudo. São os próprios polícias que nos dão acesso, e isso incita à violência entre nós: com tanta liamba e cocaína disponível, há muita rixa aqui, entre os que querem ser os chefes do tráfico”, acrescentou. O mesmo se repete nas cadeias de Viana, Calomboloca (Bengo) e do Benfica, relatam outras fontes, ouvidas pelo Vanguarda. Já alguns funcionários que trabalham nas cozinhas comercializam armas brancas – as mesmas que são muitas vezes usadas nas brigas, que acabam, por vezes, em mortes.

O material chega aos presos por intermédio dos colegas de cela que trabalham nos refeitórios e na barbearia, o que é facilitado por não existir um sistema de fiscalização dos reclusos, ou de videovigilância. “Quem vende são os presos que trabalham na cozinha e na barbearia. Usam esses objectos como ferramentas de trabalho, mas depois são eles que fornecem as facas, lâminas e bisturis”, explica o ex-recluso.

De acordo com a mesma fonte, a venda das armas brancas é feita sem conhecimento dos agentes, que acabam por descobrir só após já ter acontecido o inevitável. Dentro dos pátios e das casernas, as armas brancas são comercializadas entre os 500 Kz e os 2000 Kz.

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