João Luís Traça: “Investidores não podem pensar que Angola é o plano A da economia portuguesa”

O País configura-se como uma potência regional, e os portugueses têm de perceber se querem estar lá ou ver o seu lugar ocupado por economias de outros países. O aviso está feito por João Luís Traça, presidente da CCIPA.

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Por Ana de Sousa

Qual é, neste momento, a percepção que tem da economia angolana?

É uma economia que se estruturou no pressuposto que teria o preço do barril do petróleo acima dos 100 USD, e o que é facto é que isso não aconteceu. A questão da queda do preço do petróleo não foi tida a sério desde o início, muitos foram os comentadores que acharam que os preços voltariam a subir.

Houve uma má avaliação da situação?

Sim, mas à escala global. Ou seja, a baixa do preço do petróleo funcionou como uma doença silenciosa. As medidas demoraram tempo a ser tomadas. Os investidores continuaram a acreditar que a queda de preços era temporária e continuaram a investir com os mesmo pressupostos. Como a lógica do investimento não é feita a curto prazo, a maioria dos agentes – Estados e investidores – levou tempo para mudar a sua atitude.

Também estamos a falar retrospectivamente…

Por isso o exemplo da doença silenciosa. Globalmente, a maioria dos países não tomou medidas a tempo. Angola não é excepção, temos, até, exemplos mais complicados.

Usando a sua metáfora, quando se deram conta da doença, a infecção já tinha alastrado?

Exactamente. E a partir daí o que é que aconteceu? Passámos de um momento em que achámos que a baixa do preço do petróleo era uma questão temporária, para passarmos para um outro momento em que a baixa do preço do petróleo se tornou uma inevitabilidade para os próximos vinte a trinta anos. O sector do petróleo fez um enorme esforço para reduzir custos, para ganhar eficiência. E nem sempre foi possível. Temos de ter noção que em cidades como Houston (Texas, EUA) muitas foram as pessoas que trabalhavam em companhias petrolíferas que foram despedidas. Angola podia ter tomado decisões mais cedo, sim, é evidente, mas, felizmente, não chegou a ser uma Venezuela – porque o modelo económico angolano é também muito dependente do petróleo. Dito isto, o que é que os investidores fizeram? Perceberam que a economia angolana estava a ficar menos atraente e, na sua visão de longo prazo, deixaram de apostar no mercado angolano. Qual foi a decisão do Governo angolano? Foi de adoptarem uma estratégia de diversificação, assumiram que não podiam ser um país tão dependente do petróleo.

Tem sido o mantra do Governo de Angola…

Com as receitas do petróleo, o governo acreditava que iria financiar a diversificação, mas para isso era preciso ter uma indústria petrolífera a funcionar bem – cash cow. Ao longo destes últimos anos, muita coisa foi feita em Angola, mas não foi o suficiente para que a dependência do petróleo fosse diminuindo razoavelmente. E agora temos que o desígnio estratégico de Angola é a diversificação – transformada numa inevitabilidade, numa prioridade.

Trabalha com investidores, o discurso do Presidente João Lourenço está a dar confiança ao mercado?

Claro que sim. O simples facto de serem tomadas algumas decisões, podemos discutir se é uma boa ou uma má opção a decisão cambial da flutuação…

Esta opção do BNA, a seu ver, vai ser positiva no médio prazo?

Sou um grande adepto do mercado, acho que tudo quanto seja alinhar com o mercado, no longo prazo, funciona sempre. Não é que isso faça com que um investidor vá investir – para muitos deles é um mau sinal –, o que dá é uma mensagem de mudança. A confiança constrói-se também com sinais. Melhorar a economia é parte do caminho.

Os empresários portugueses congelaram os investimentos em Angola? Não estão a arriscar?

Não acho que a questão se coloque dessa forma. Não se trata de arriscar ou não arriscar. Acho que a economia angolana, numa lógica macro, está uma economia menos atractiva para os investidores portugueses, essa é a primeira questão. Segundo ponto, é preciso ter noção de que a economia portuguesa está a crescer. Terceiro, no que também é um ponto importante, quando se olha para a economia portuguesa, vemos que a economia está a exportar serviços – o IT (Tecnologias de Informação) é um desses exemplos – para outros mercados. Os investidores continuam a acreditar em Angola, mas num espaço de menor visibilidade. Há cinco anos, muitos investidores olhavam para Angola como o plano A da economia portuguesa, e não havia plano B – e foram tempos muito importantes para ajudar a economia portuguesa a dar a volta, não tenhamos ilusões…

Quer dizer que Angola já passou a plano B?

Não. Mas, claramente, já não podemos dizer que é só o plano A. O plano A da economia portuguesa tem hoje uma visão mais alargada.

E a reciprocidade? Com o recente exemplo da Isabel dos Santos na Efacec, podemos dizer que a economia portuguesa se tornou mais atraente para os investidores angolanos?
Repare, uma das coisas que contribuíram para Portugal sair da crise – nos anos duros da crise – foi o investimento estrangeiro, e nessa altura houve muito investimento angolano em Portugal. Não nos vamos esquecer disso. E muito desse investimento criou emprego e contribuiu para a melhoria da economia portuguesa.

Essa relação de dependência entre as duas economias está a atenuar-se?

Está atenuar-se porque economicamente há menos contexto para acontecer. Em concreto: a economia angolana perdeu a atractividade, os investimentos portugueses estão menos virados para Angola. Os portugueses investem noutros mercados. E Angola, por sua vez, tem menos condições para ir fazer investimentos em Portugal. É uma realidade com que estes dois países têm de se habituar a viver.

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