#acabademematar

Neste fim de semana senti-me pesarosa e embaraçada com um vídeo que recebi via WhatsApp de crianças a brincarem na água da chuva. A alegria daquelas crianças nada dizia sobre a sujidade da água, o risco de um cabo descarnado ou a ausência de adultos que pudessem parar com a brincadeira.

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Por Suzana Sousa

Neste fim de semana senti-me pesarosa e embaraçada com um vídeo que recebi via WhatsApp de crianças a brincarem na água da chuva. A alegria daquelas crianças nada dizia sobre a sujidade da água, o risco de um cabo descarnado ou a ausência de adultos que pudessem parar com a brincadeira. Mas tudo o que não nos transmitia esse sorriso falava da nossa incompetência como sociedade e da nossa capacidade de olharmos o outro como um irmão, como um igual. Não houve nenhum abaixo-assinado, nenhum gesto indignado de uma sociedade que assiste diariamente aos seus a morrerem por motivos vários, muitas vezes violentamente desnecessários. Estamos todos focados nas nossas urgências pessoais.

Poucos de nós se podem gabar de não pensar na água, na luz em casa ou no trânsito. Questões que, de tão elementares, não deveriam ocupar mais do que o mínimo essencial. Estas, como outras que não me ocorre aqui nomear, parecem manter-nos a todos num constante estado de urgência. Um estado que nos permite reagir a várias solicitações imediatas que o dia-a-dia nos impõe. Resolvemos. Verificamos. Antecipamos. Despachamos. Contudo, perdemos visão do futuro ou estamos apenas exaustos para projecções e reduzimos os problemas aos seus sintomas. O estado de urgência parece estar também presente a nível das políticas públicas, produz-se legislação que não é aplicada, preocupamo-nos em resolver o problema imediato de tudo o que nos assola. Mas onde estaremos em 30 anos, em 50 anos? As preocupações com educação, por exemplo, devem remeter-nos necessariamente para o futuro. Que profissionais estamos a formar?

Mas também neste fim de semana descobri no Facebook o protesto #acabademematar. E sim! Morri com a criatividade e, ao mesmo tempo, com a utilização da imagem, da nossa construção visual do corpo e das claras referências à nossa realidade e urgências. Para mim, o melhor de tudo foi o corpo, o homem se preferirmos, no centro de todas as preocupações, e elas são muitas e diversas. Ao mesmo tempo, é inquietante como estas imagens parecem reproduzir uma linguagem visual da imprensa africana e sobre África. Enquanto neste caso sabemos tratar-se de encenações, quantas foram as vezes em que o corpo negro foi tratado com indiscrição, descuido, abuso pela imprensa, o que oferece uma certa familiaridade às imagens? A discussão sobre cada uma das fotos e o esforço necessário para cada uma delas demonstra quão deliberado e estruturado é o protesto na base deste projecto que é simultaneamente discursivo, performativo e colaborativo.

#acabademematar é um grito sobre a necessidade de pensar um país com dificuldades reais e que parece desaparecer do discurso público. Na referência à urgência quotidiana de saneamento público, água potável, saúde, educação e cultura que verificamos nas imagens, encontramos uma pergunta maior sobre o futuro que construímos e o caminho que percorremos. No rescaldo da aprovação do OGE 2018, este protesto coloca no centro do debate a juventude, não como um conceito abstracto, mas como uma parte substancial da sociedade angolana. Pela primeira vez, há uma articulação sobre o estado de espera em que se encontra a juventude angolana num estado de suspensão que não permite um total exercício de cidadania e que se fica na luta entre o pão de cada dia e a ausência de um estado que assume todas as suas responsabilidades. O ruidoso silêncio destas imagens não nos deve deixar indiferentes, pelos temas que tratam, pela inteligência com que os abordam e sob pena de o futuro não ser para todos.

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