Os homens e os livros

Não pode haver dúvidas de que o homem angolano é o recurso mais valioso e estratégico. Disto decorre que, qualquer que seja a perspectiva de desenvolvimento para o País, ela deve assentar numa aposta clara na qualificação dos cidadãos.

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Por Gildo Matias José

Não pode haver dúvidas de que o homem angolano é o recurso mais valioso e estratégico. Disto decorre que, qualquer que seja a perspectiva de desenvolvimento para o País, ela deve assentar numa aposta clara na qualificação dos cidadãos. É por isso que a educação, o ensino e a investigação científica assumem particular relevância, pois qualificam o homem, primeiro para a sua emancipação, e segundo por uma acção socialmente desejável de acordo com o interesse geral, nacional. Os nossos problemas são mais do que conhecidos. Uma educação que não tem tradução prioritária na alocação dos recursos financeiros públicos. Uma política educativa ziguezagueante e errática, que ignora o essencial para a garantia das bases do desenvolvimento psicomotor e cognitivo das crianças. Pensemos, por exemplo, que a oferta educativa no pré-escolar é quase inexistente (em creches e infantários não responde a 10% das crianças em idade escolar).

Temos os menos qualificados nas classes iniciais, ao que se acresce a monodocência, quando a oferta formativa pedagógica disponível forma os professores para duas disciplinas no médio e uma no superior. A condição remuneratória dos docentes não é das melhores, e as escolas não têm recursos para responderem à exigência de uma sociedade em transformação e jovem.

Uma educação que exclui milhões de jovens. No ensino superior, temos uma universidade ferida na sua espinha dorsal: a autonomia. Esse elemento constitutivo da universidade deve manifestar-se na sua tripla condição: política, administrativa, mas, essencialmente, financeira. Ao contrário do que se pensa, e bem diz o PR, a universidade não é democrática. Uma universidade que, sem campus, não consegue sair do campo. Não temos uma única infra-estrutura digna que permita demonstrar a relevância que atribuímos ao conhecimento.

Sem investimento não há investigação, produçãode conhecimento nem extensão. Continuamos a caminhar na já anunciada revolução quantitativa, mesmo quando o discurso ambiciona (e bem) a tão desejada qualidade (que requer investimento e internacionalização), e com uma tutela que insiste em ser árbitro e jogador ao mesmo tempo. Ou seja, temos homens, mas não temos livros. E, se admitirmos que os segundos forjam os primeiros, é urgente voltar à primeira questão: temos homens?

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