História, memória, poder

148
COMPARTILHE

Por Suzana Sousa

Parecemos assistir nos últimos tempos a uma nova batalha sobre a memória nacional, normal no contexto de uma nova governação. Não tão normal assim se considerarmos que não houve uma alteração do partido no poder. Ainda assim, a memória de Agostinho Neto parece ressurgir, inclusive com a atribuição da patente de general ao primeiro PR. Sem querer discutir a relevância do gesto, esta é uma preciosa oportunidade de discutirmos o lugar da memória na nossa política interna. Não só como um mecanismo selectivo de silenciamento e/ou manutenção de uma específica construção de nação, mas uma oportunidade de inclusão e de assunção da diversidade de histórias que compõem o País e a nação.

Os movimentos de libertação em Angola, como outros, defendiam visões da nação particulares, necessariamente associadas à sua construção do político. A que adoptámos, pelo esforço de não definição étnica, assumiu o risco de exclusão de grupos minoritários.

Não assumiu, ou não temos assumido, o risco da exoticização das nossas culturas, retirando-as do ritmo do tempo e estilizando-as como fixas no tempo, muito como fazia o poder colonial.

A memória é considerada por alguns como um guia maleável para o passado. Gosto de pensar nela como uma cola nas sociedades. A memória social, partilhada e quase sempre imaginada, tem a capacidade de desenvolver laços entre gerações e grupos, e também um grande potencial de conflito, dependendo de como as histórias são contadas ou contextualizadas. A nossa história tem um imenso rasto de violência e trauma, de conquistas e rebeliões, de formas de contestação e dos muitos matizes que a força humana permite. A arte tem tomado para si grande parte destas questões – o teatro de Mena Abrantes, as obras de António Ole ou Kiluanji Kia Henda, o cinema de Pocas Pascoal ou Zezé Gamboa, entre outros.

Na política, a memória parece ser um foco de tensão sujeita a uma gestão algures entre o excesso de autoridade e a hesitação. Da Maria da Fonte substituída pelo tanque de guerra, na praça do Kinaxixi nos anos 80, à galeria de estátuas coloniais no recente Museu de História Militar ao shopping da Fortaleza, custa-me discernir uma política concreta. Vejo muitos vazios, pedaços da história deixados ao abandono ou votados ao desaparecimento.

Vive entre nós uma bonita ideia dos velhos como bibliotecas vivas, normalmente lembramo-nos desse valor quando obrigados a constatar o seu desaparecimento, mas o alcance destas bibliotecas é limitado – exigem consulta presencial. Já as políticas públicas, ou a falta delas, têm um papel concreto na forma como lidamos com o espaço público, que monumentos construímos e celebramos, que silêncios gerimos, que histórias contamos. E o descaso não parece capaz de conter o carácter maleável e privado da memória, então volta e meia surge a arte e por outras as notas de rodapé nas notícias – Lucas Ngonda a solicitar a devolução de património do seu partido; Eugénia Neto a lembrar que o Presidente Neto já não precisa de patentes.15 anos após o fim da guerra, talvez a memória mereça mais atenção. Temos bons exemplos de como é importante reconhecer a sua força junto das pessoas e das comunidades. Vejamos o exemplo das comissões de reconciliação e verdade na África do Sul, ou de como o Holocausto nunca deixará de estar presente no discurso político mundial. O receio que temos de acender mágoas antigas não nos deve permitir votar ao silêncio o passado. E não devemos esquecer que contar a nossa história não é o mesmo que deixar alguém contá-la por nós. Serão versões diferentes. E hoje continuamos a estudar as nossas histórias em palavras alheias. Isso é, claro, já não uma questão de memória, se não de decisão política e da força das nossas academias e instituições de ensino superior.

COMPARTILHE