Cléber Correia: “É mais vantajoso arrendar do que comprar casa”

O imobiliário está com uma quebra de 60% e vai continuar a cair, alerta o vice-presidente da Associação dos Profissionais Imobiliários de Angola (APIMA). Estado tem de facilitar direito de superfície para dinamizar sector.

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Por Edjaíl dos Santos Fotos Njoi Fontes

Como avalia o sector imobiliário, no momento?

Falta crédito imobiliário, porque não há segurança para os bancos. Um banco que, hoje, tenha um crédito malparado demora três anos para reaver o valor do devedor, e muitas vezes isso nem acontece. Só com a redução dos riscos, com garantias, é que os bancos irão dar novos financiamentos. O mercado caiu 60% e vai continuar a cair. Temos, neste momento, um custo muito caro de importação, pela falta de divisas, por isso a construção de imóveis está lenta. As empresas constroem com material local, mas, na hora do acabamento final, grande parte do material vem de fora. Vamos continuar com períodos de quebras, ajustes do mercado e retoma de vendas, porque, apesar do mau momento, a economia continua a crescer.

Há projectos, como o Bem Morar e o JEFRAN, que abalaram a credibilidade no sector…

Temos dito que, na ânsia de comprarem casa própria, as pessoas não verificam-se os imóveis têm direito de superfície e desanexação. Quando faltam esses documentos, é o primeiro indício de que o promotor pode não cumprir o que prometeu. Temos de ‘apertar’ a fiscalização, porque a APIMA não tem força para fazer isso sem a atribuição dessa competência. Nestas questões que mexem com o consumidor, há instituições do Estado que regulam e fiscalizam, como o Instituto de Defesa do Consumidor e outras. O conselho que damos é que se olhe para a documentação, que esta seja submetida a um advogado e, se possível, que se pague consoante o andamento da obra.

Há muitas casas devolutas nos condomínios de Luanda…

São casas que são de alta gama, que custam 350 mil a 700 mil USD. Esse mercado está atendido: o cliente de classe alta já comprou as casas que queria, e hoje quer arrendar a sua moradia, porque actualmente é mais vantajoso pagar renda do que comprar um imóvel.

Quais são as zonas mais apetecíveis para comprar casas?

A cidade, porque o poder central e o financeiro estão lá, depois, Talatona, Patriota, Benfica, Camama e a Centralidade do Kilamba. Viana tem muitas empresas, mas não é fácil comprar residências na zona. A perspectiva de inauguração do novo aeroporto no próximo ano vai ‘puxar’ mais gente e investimentos para a região de Ícolo e Bengo. É uma boa zona para comprar terrenos, mas com documentação.

Que tipo de residências é procurado?

As pessoas querem imóveis pequenos, porque a economia está em crescimento,mas para isso falta mercado. Um executivo que precise de um escritório de 50 metros quadrados só o encontra em construções antigas. O investidor ou expatriado que venha em trabalho, sem família, e que queira um apartamento pequeno, de um ou dois quartos, não o encontra. Há umnicho de mercado para construir.

E os preços?

Em Luanda, os preços são pelo menos 30% mais altos do que em Talatona. Por exemplo, um imóvel que custe, na cidade, 450 mil USD, em Talatona pode custar 350 mil USD.

O défice habitacional é elevado…

Sim, e as centralidades não acabaram com esta falta de casas. O Estado deve dar condições para que os privados cubram esta carência, criando as infraestruturas. A construção das centralidades foi um momento político importante para o Estado depois da guerra. Agora, o Governo precisa de apostar nas infra-estruturas, porque, se existir luz, água e estradas para vários lugares, o investimento privadochegará lá.

Que desafios tem a APIMA neste ano?

A primeira ‘bandeira’ do ano é podermos fornecer carteiras profissionais. A APIMA está a trabalhar nisso junto dos ministérios da Educação e da Justiça, para que estejamos habilitados a fornecer a carteira profissional. Estamos a preparar um curso e vamos submetê-lo a quem de direito, para ver se estamos habilitados a fornecer esta formação.

Quantos profissionais trabalham no sector?

Só em Luanda, quase mil, mas nem todos são associados. Na associação, temos cerca de 60 membros, entre profissionais liberais e empresas. Mas, quando surgirem os novos pressupostos que estamos a criar, muito mais gente irá filiar-se, e também poderemos apoiar mais os profissionais do sector. Esta actividade, em grande parte, tem sido muito informal, com pessoas que vendem ou intermedeiam vendas e depois desaparecem até terem uma nova oportunidade de fazer dinheiro sem prestar um bom serviço ao cliente. Nos países organizados, o ramo imobiliário é regulado por leis e associações. Em Angola, não pode ser diferente.

Quem fiscaliza a vossa actividade?

Somos fiscalizados e regulados pelo Instituto Nacional de Habitação, com quem pretendemos trabalhar para termos pessoas credenciadas a trabalhar no sector, como acontece com os advogados e os médicos. Pretendemos conquistar isto até ao fim do ano, mas primeiro tem de ser aprovado um documento legal que nos atribua a competência de certificar os profissionais. Ainda não apresentámos nenhuma proposta de lei, porque estamos a finalizar os módulos da formação, que têm de ser aprovados pelo Ministério da Educação.
A facilitação do direito de superfície também é um desafio?

Sim, conseguir o direito legal da área de construção dos imóveis tem sido uma grande luta. Estamos a trabalhar junto do Estado para a criação de um Guiché Único do Imóvel, onde uma pessoa entre com a documentação para adquirir o direito sobre um terreno e todos os intervenientes para essa legalização estejam presentes, para acelerar e facilitar o processo. Temos feito reuniões com os ministérios de tutela, que pretendem adiantar o processo rapidamente, para que isto deixe de ser um entrave ao desenvolvimento do País. Ao ter um parque imobiliário regularizado, o Estado tem uma outra oportunidade de fazer dinheiro.

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