Mário Pinto de Andrade e a crítica literária angolana da segunda metade do século XX

O discurso crítico legitimador de que Mário Pinto de Andrade é um dos principais arautos representa uma forma de reflectir sobre a literatura angolana

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Por: Luís Kandjimbu/ Escritor e docente universitário

Em 2013, para celebrar o sexagésimo aniversário da primeira edição do Caderno de Poesia Negra de Expressão Portuguesa, publicado em 1953 por Mário Pinto de Andrade (angolano) e Francisco José Tenreiro (são-tomense), o meu amigo Luandino Vieira, na sua qualidade de editor, tomou a iniciativa de dar à estampa uma edição facsimilada cuja nota introdutória é assinada por mim. Por isso, num tributo que presto ao meu caro amigo, trago à conversa um pouco de história da crítica literária angolana.

No início da década de 50, multiplicavam-se em Angola iniciativas que visavam a formação de contracânones literários, sendo tais acções atribuídas à agitação de um novo associativismo, suportado por ideologias políticas em voga. Constituem-se novas associações que herdam a história da Liga Angolana e do Grémio Africano, nomeadamente, a Liga Nacional Africana e a Associação dos Naturais de Angola. A estas duas herdeiras da tradição associativista do princípio do século, junta-se uma nova associação, a Sociedade Cultural de Angola, fundada em 1942. Todas elas publicavam revistas. Com diferentes modelos de interpretação da realidade angolana, pugnam por uma autonomia cultural que encontra o seu esteio nos membros das gerações literárias formadas nesse período. Entre as mais relevantes acções do Departamento Cultural da Associação dos Naturais de Angola (ANANGOLA) destaca-se a criação do Movimento dos Novos Intelectuais Angolanos e a Antologia dos Novos Poetas de Angola, publicada em 1951. Na sequência de um diagnóstico esboçado por Agostinho Neto no jornal Farolim, a partir dessa data Mário Pinto de Andrade empreende igualmente esforços que visavam legitimar a existência da literatura angolana, com a publicação dos seus primeiros ensaios na revista Mensagem da Associação dos Naturais de Angola, no boletim Mensagem da Casa dos Estudantes do Império e na revista Vértice, publicados em Luanda e Lisboa: “Questões de linguística bantu – Da posição do ‘Kimbundu’ nas línguas de Angola”, “A Literatura Negra e os seus problemas” e “Esquema do Problema Linguístico Negro-Africano”. Dois anos depois, Mário Pinto de Andrade e Francisco José Tenreiro organizam o Caderno de Poesia Negra de Expressão Portuguesa, publicado em 1953. Trata-se de um testemunho de assinalável importância para a história das chamadas literaturas africanas de língua portuguesa. A sua singularidade reside no facto de exprimir a convergência de uma geração inteira de africanos que, representada por um grupo de estudantes originários de Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe, ousou manifestar a consciência colectiva da sua especificidade cultural, ao criar também em 1951 o Centro de Estudos Africanos, na cidade de Lisboa, de que Mário Pinto de Andrade foi um dos seus mais activos dinamizadores. É do pensar sobre si e para si, isto é, sobre África e para África, que emana a necessidade de publicar esta antologia poética. Não parece, por isso, refutável o reconhecimento do carácter legitimador desse “caderno”, se tivermos em atenção os efeitos perturbadores causados à ordem política colonial como se pode provar através da abundante documentação produzida pela acção persecutória da PIDE, a polícia política portuguesa, a respeito de Mário Pinto de Andrade e do referido “caderno” que viria a dar origem a Antologia de Poesia Negra de Expressão Portuguesa, publicada em Paris alguns anos mais tarde. Estamos perante o dealbar de um discurso crítico autónomo que pretende ocupar-se da construção de um cânone literário cuja validação institucional ocorrerá apenas na primeira década dos anos 70, após as independências políticas das antigas colónias portuguesas. Trata-se de um pensamento seminal que é, ao mesmo tempo, um dos momentos genéticos do processo de disciplinarização das literaturas de Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe, também conhecidas pela denominação generalista de literaturas africanas de língua portuguesa. Ora, se entendermos que o mencionado processo de disciplinarização comporta igualmente duas fases, uma pré-disciplinar e outra disciplinar, na primeira têm o seu lugar cativo dois fundadores, nomeadamente, Mário Pinto de Andrade e Francisco José Tenreiro, que operam fora dos meios universitários da época. Poucos anos após a sua fixação em Paris e como redactor na revista Présence Africaine, Mário Pinto de Andrade publica um artigo em 1955, Qu’est-ce que le luso-tropicalisme?, que define o quadro sintomático de rutura relativamente à hegemonia da ideologia colonial. Em diversas ocasiões volta à problemática da legitimidade da literatura angolana. Tal é caso do texto Littérature et Nationalisme en Angola, publicado na mesma revista em 1962. Sucessivamente, Mário Pinto de Andrade reiterava a refutação doutrinária do luso-tropicalismo que se pretendia aplicável a Angola, pois negando tal possibilidade afirmava a consciência do dilema por parte dos próprios intelectuais que procuravam resolver correctamente os problemas engendrados pela assimilação: “rejeição definitiva do substrato negro-africano? Diluição na cultura dominante? Aceitação da pseudocondição de mestiço cultural?” A tais perguntas, Mário Pinto de Andrade respondia: “[…] esboçam-se gestos e atitudes fundamentais que vão conduzir os intelectuais angolanos ao aprofundamento da sua própria consciência nacional.” Durante as décadas de 50 e 60, a elaboração de antologias literárias e os estudos sobre a literatura angolana traduzem-se na emergência de postulações teóricas que dão origem a conceitualizações, tendo em vista a explicação dos fenómenos culturais e literários, e a legitimação do discurso crítico sobre a literatura angolana. Desenha-se uma fractura no exercício do poder de definição. De um lado, o discurso da angolanidade. E de outro lado, o discurso da crioulidade. Para o discurso da angolanidade concorrem vários contributos. Em 1959, Agostinho Neto retoma as ideias formuladas em 1946, quando na palestra com o título Introdução a um colóquio sobre poesia angolana, proferida na Casa dos Estudantes do Império em Lisboa, dissertava acerca do carácter substantivo da cultura angolana que devia impregnar os textos literários angolanos, identificando o risco da assimilação e da desreferencialização dos intelectuais angolanos:

“[…] perturbados pelo processo de coisificação, esqueceram por muito tempo que existia a civilização africana. Aceitaram a ideia de ‘coisas sem importância’ para as culturas negras […], não se voltaram para o lado mais importante da questão: para as tradições dos seus povos, para as suas línguas que não sabiam falar, para a filosofia, para a religião […].” O pensamento que então se vai esboçando era o culminar daquelas actividades de reflexão que vinham sendo produzidas no quadro do Centro de Estudos Africanos desde 1951, por intelectuais oriundos das ex-colónias portuguesas.

Data dessa época a realização do I Encontro de Escritores Angolanos realizado na cidade de Sá da Bandeira, hoje Lubango, em 1963, que durante nove dias, de 19 a 27 de Janeiro decorreu no Salão Nobre dos Paços do Concelho da Cidade de Sá da Bandeira. Sob a vigilância da polícia política, foi uma oportunidade que permitiu desencadear um debate sobre o problema da definição da literatura angolana. Entre os vários testemunhos destacamos aqui a palestra de Mário António Fernandes de Oliveira, a referência de Carlos Ervedosa, uma década depois, à definição de cultura angolana de que deriva a de literatura angolana aprovada “por maioria, e não por unanimidade”, o artigo de Alfredo Margarido, publicado em 1963 na Mensagem da Casa dos Estudantes do Império, através do qual desfere uma lúcida crítica contra a referida definição de cultura angolana e, finalmente, o depoimento de Henrique Guerra, que participou no referido encontro. Em matéria de contracânones literários em contexto colonial, cabe a Mário Pinto de Andrade o mérito de ter desenvolvido um discurso crítico e historiográfico, no exílio, marcado pelo paradigma da libertação cultural do continente africano prolongando-se numa actividade política intensa. Entre as suas obras, destacam-se Poesia Negra de Expressão Portuguesa (1953), La Poésie Africaine d’Expression Portugaise (1969), Antologia Temática de Poesia Africana em dois volumes (1977) e, já na década de 90, a título póstumo, foi publicado Origens do Nacionalismo Africano.

Portanto, o discurso crítico legitimador de que Mário Pinto de Andrade é um dos principais arautos representa uma forma de reflectir sobre a literatura angolana, perante a necessidade de responder às seguintes questões: O que é a literatura angolana? Quem são os principais agentes da história da literatura angolana? A partir de que ponto de vista se deve escrever a história da literatura angolana? As respostas às questões formuladas vêm plasmadas nos textos seminais de Mário Pinto de Andrade a respeito da identidade literária angolana, dando forma a uma teoria da angolanidade, num processo de categorização que opera com pressupostos conformadores das condições necessárias à caracterização da cultura angolana respondendo às tentações hegemónicas de outras teorias consagradas pela história do colonialismo em Angola.

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