A política entre a memoria e os símbolos

Entre as celebrações do Dia Mundial dos Monumentos e Sítios, que teve lugar no passado dia 18, e como estes reflectem momentos históricos e políticos, e as festivas imagens do funeral de Winnie Mandela, a semana resultou num conjunto de imagens da história recente do continente africano.

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Entre as celebrações do Dia Mundial dos Monumentos e Sítios, que teve lugar no passado dia 18, e como estes reflectem momentos históricos e políticos, e as festivas imagens do funeral de Winnie Mandela, a semana resultou num conjunto de imagens da história recente do continente africano. A iconografia colonial sobre África. Imagens soltas da história da arte produzida em Angola. EFF e Malema. A boina vermelha e o punho cerrado. Reminiscências da luta de libertação nos monumentos nacionais a par do passado colonial que está mais presente e mais próximo do que às vezes queremos admitir. Bastaria um passeio pelo Museu de História Militar para uma demonstração do entrelaçar entre a história e a memória e como esta última às vezes nos trai, distanciando momentos e aproximando outros. No Museu de História Militar temos a memória colonial e seus heróis ao lado dos carros de Agostinho Neto e da majestosa Rainha Njinga A Mbande, vão lá com uma criança de cinco anos e tentem explicar que não estão bem juntos. Ou, melhor, estão juntos mas não misturados.

No seu último desejo, Winnie Mandela sugere uma aliança entre o EFF de Julius Malema e o ANC. Entre os vários intervenientes ouvimos referências ao conceito de casa, sendo esta o ANC. Mas verificamos uma cisão não apenas ideológica mas geracional entre os dois partidos. O EFF representa uma juventude que se sente excluída do contexto económico da África do Sul. Uma juventude que recupera para a discussão política a história recente do seu país e do continente e que resulta na exclusão de um grande grupo populacional, jovens e negros. Para esta população, que a nível do continente tem maioritariamente entre 15 e 24 anos, a memória é de guerra e pobreza, de exclusão e desemprego.

No hiato geracional que existe entre as classes dirigentes em África e a sua jovem população, como funciona a linguagem simbólica? Julius Malema parece perceber esse hiato, na sua utilização da boina ao estilo de Thomas Sankara e do punho cerrado, não dos panteras negras mas da Winnie, ou de ambos? Como conciliar o que pode na realidade ser uma visão diferente da história? O EFF condena a geração que celebrou o fim do Apartheid sem garantir o crescimento económico da população negra, e este corte fere a narrativa nacionalista do ANC. Não estará esta cisão a decorrer sem que os governos em África percebam novas e possíveis construções do passado e do futuro?