Não só mas também…

Todos somos prisioneiros das escolhas que fazemos, mas não temos de entender isso como uma condenação

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Por: Onofre dos Santos

Gostaria de poder escrever todas as semanas uma crónica que desse que pensar aos meus leitores e ao mesmo tempo os fizesse sorrir. Mas não só… Gostaria também de que elas fossem mais do que um badalar repetitivo e cansativo. São Paulo escrevendo aos Coríntios já o dizia: “Se nas línguas dos humanos e dos anjos eu vos falar, mas amor não tiver, não serei mais do que um sino que toca”, um ruído que passa! Sou, porém, um optimista militante que acredita no País, na sua viabilidade, procurando aqui e ali chamar a atenção para o quanto esta capacidade é tão exigente quanto à sua transformação em actos, obras e actividades a realizar no nosso tempo. É que se “nem só de pão vive o homem mas também da palavra de Deus”, como o disse Jesus tentado no deserto… O diabo não deixava de ter muita razão ao oferecer-lhe pão, depois de tantos dias de jejum. Isto porque a inversa também é verdadeira… Não bastam as palavras de Deus, pois, sem pão para comer, o homem morre! Isto para dizer que as palavras não dispensam as boas obras, o trabalho competente e dedicado que produz bons resultados.

Sou, volta e meia, assaltado pela incerteza da aplicação daquela passagem evangélica de Mateus às minhas crónicas semanais: Palavras que o vento leva. Recordo cada uma delas, com o chamariz dos seus títulos alusivos a momentos que se viviam semana após semana. Estava a decorrer o processo eleitoral, podíamos quase apalpar as expectativas chocando-se alterosas como ondas num mar em plena calema. Vieram depois os actos eleitorais e os resultados, e, com eles, as expectativas giraram como pedras coloridas de um caleidoscópio nas mãos de uma criança.

Nesta coluna que me foi tão gentilmente oferecida, dei voz aos meus pensamentos sobre cada um dos momentos cruciais que íamos vivendo esperando nunca ter incorrido em juízos temerários: Crónica de uma campanha anunciada – Alô, alô, Vidigal – Não é GIP, é SUV – A noite e os tambores – Favas contadas – A new kid in Town – Habemus papam – Um primeiro passo – Dura Lexus sed lexus – Uma aula na universidade – Oração – Via láctea – A casa das promessas – Golpe de predestinação – Branca de Neve – Um novo direito nasceu – Uma questão de talentos – Caminho de São Tomé – O país gradual – O nome do jogo – Tempo conciliar – Quem quer ser milionário e patriota? – Ouro, incenso e mirra – De Herodes para Pilatos – A idade da reforma – De Davos a Adis Abeba – O outro Lourenço – O que muda nestes quatro anos – Conselho ou consequência? – O nosso profeta – Um príncipe angolano – O passado imprevisível – Antes e depois – Boa Páscoa? – Toma lá as autoridades tradicionais – O céu pode esperar…

Não sou jornalista, mas, se tivesse outra vida, gostaria muito de o ser. Como acontece, aliás, com muita gente que quer ser uma coisa que nunca foi nem jamais o será. Todos somos prisioneiros das escolhas que fazemos, mas não temos de entender isso como uma condenação, porque, na verdade, quando conscientemente escolhemos um caminho, são grandes as probabilidades de chegarmos, sem grandes percalços, ao nosso destino. Muito pior pode acontecer quando pensamos que somos capazes de executar não um mas sete ofícios. São, então, muito elevadas as possibilidades de não fazermos nada de jeito em nenhum deles. Temos, felizmente, muto bons jornalistas angolanos, e bom seria que, numa faculdade de jornalismo, alguns pudessem ensinar, porque a qualidade de qualquer democracia muito depende das novas gerações instruídas nessa arte de comunicação social.

O que não falta são assuntos polémicos, em desenvolvimento frenético, que reclamam análise, que nunca será uniforme, pois a controvérsia está no âmago de questões como a despartidarização do Estado, a implementação das autarquias locais, as futuras competências municipais versus as actuais e futuras competências dos administradores locais do Estado, os incentivos ou a coacção para se conseguir com êxito o repatriamento de capitais, a discussão pública do Orçamento Geral do Estado, a transmissão televisiva não só dos trabalhos do plenário da Assembleia Nacional como de alguns trabalhos das suas comissões, continuar ou não o sistema eleitoral a excluir a eleição universal do Presidente da República independentemente da indicação do cabeça-de-lista partidário, o lugar do costume no nosso ordenamento jurídico e o papel a desempenhar pelas nossas autoridades tradicionais de acordo com a vontade da Constituição, apenas para citar aquelas matérias que de momento suscitam a maior curiosidade e interesse do público leitor. Os jornais, as rádios, as televisões e as redes sociais são, por assim dizer, a universidade que todos os cidadãos podem frequentar sem ter de pagar matrícula. Ora, como se tem estado a ver a propósito do tema quente do repatriamento de capitais, as pessoas comuns que até estão dispostas a desfilar pelas nossas avenidas ignoram os contornos jurídicos desta melindrosa questão e o que sobre ela pensam os seus representantes no parlamento. A este propósito, duas leis foram já aprovadas na generalidade, uma do Governo, outra da oposição, tornando absolutamente necessário que se perceba notoriamente o que pensam na especialidade os nossos deputados e como irão harmonizar as medidas previstas. Os próprios partidos que tanto reclamaram no passado sobre a perda do seu direito de questionar no parlamento os senhores ministros pela sua acção governativa, mais de meio ano depois da sua eleição, ainda não tiveram perguntas a fazer, apesar da possibilidade que lhes foi aberta pelo Senhor Presidente da República.

Tenho, porém, a sensação de que a minha prolongada colaboração neste semanário se arrisca a fazer-me cair na tentação de querer ser jornalista, que assumidamente não sou. O que me aconselha a parar, a escutar e a olhar antes de voltar a avançar.

Escrevo, por isso, a despedir-me, temporariamente, espero, desta coluna e desta meditação semanal, com o sentimento de quem se afasta num navio e vê ao longe no cais rostos que já não consegue identificar nem isso já importa. Levo todos nesta viagem, no meu coração, e fico a remoer na amurada os títulos de crónicas que já não serão minhas: Municípios que antes de serem já o eram – As crianças ao poder – Contas de cabeça – Um quadro negro à espera de giz – Os pássaros e os lírios do campo – A bolsa ou a vida – O cacimbo do meu descontentamento – Diga lá, senhor ministro – O novo cabo das tormentas – Um álibi impecável – Volta perfeita – O comboio apitou três vezes – O eclipse…