Saúde, educação e emprego são os desafios das novas gerações

O retrato dos políticos angolanos enquanto jovens por Alicerces Mango e Rafael Aguiar.

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Por: Ana de Sousa

Alicerces Mango é o secretário-geral da JURA (Juventude Unida e Revolucionária de Angola), a organização da juventude da UNITA, Rafael Aguiar é secretário-geral da JPA (Juventude Patriótica de Angola), a organização da juventude da coligação eleitoral CASA-CE. Falámos em separado com cada um deles de forma a descobrirmos o que têm em comum os líderes das juventudes dos dois maiores partidos da oposição em Angola. No essencial, têm as mesmas preocupações no que diz respeito ao acesso ao ensino e à má qualidade do ensino em Angola, causa primeira para a má preparação de muitos jovens. Sendo que hoje há jovens muito mais bem preparados e com formação superior, a verdade é que o acesso aos círculos de poder ainda depende mais de laços sociais ou partidários do que da meritocracia. Uma realidade que se confunde com um vício antigo que os jovens tendem a assimilar dos mais velhos e que deve ser combatido. Ambos os dirigentes partidários das juventudes admitem que hoje há maior abertura e mais diálogo. Alicerces Mango assume que está a trabalhar com Sérgio Luther Rescova, dirigente da JMPLA, e que será possível, talvez até ao fim deste ano, a apresentação de um pacote legislativo comum relacionado com políticas concretas para a juventude.

Alicerces Mango, JURA

Para o líder da juventude partidária da UNITA, o principal desafio dos jovens angolanos ainda é o da reconciliação nacional. “Nós, os angolanos, ainda não estamos completamente reconciliados, ainda somos confrontados com as dificuldades dos nossos mais velhos, que são aqueles que dirigem, actualmente, os partidos políticos. Ainda há muito preconceito e desconfiança”, diz-nos. Por isso mesmo, tem para si que a principal tarefa como dirigente partidário é levar os jovens a sentarem-se para conversar, independentemente do partido a que pertençam.

“Passámos por várias etapas, primeiro a descolonização, agora a democratização”, prossegue, acrescentando que tem de se combater a ideia do MPLA de um povo e de uma só nação, “há que haver mais respeito pela diversidade, pela diferença de opinião, um maior respeito pelo direito à diferença”, e acrescenta que essa sempre foi a luta da UNITA, a par de proteger os menos favorecidos, os mais pobres. Surge a questão ideológica, “a UNITA tem a sua própria ideologia”, afirma, sem concretizar se é de esquerda ou de direita, acaba por aceder em situar a UNITA como um partido com “mais pendor para a esquerda”.

‘Aly’ Mango, como também é tratado, prefere concentrar-se no plano prático e enunciar os grandes desafios das novas gerações, que não têm acesso fácil ao sistema de educação ou de saúde, não têm emprego ou uma segurança social capaz, num país em que um jovem entre os 18 e os 20 anos, em demasiados casos, já tem uma família e “não tem um salário mínimo que lhe permita sobreviver e cuidar da família”.

É importante e determinante fomentar o diálogo com todas as lideranças juvenis de forma a criar políticas concretas de apoio aos jovens, até porque em Angola, e de acordo com o Censos de 2014, 60% da população são jovens, e não há políticas pensadas especificamente para esta larga maioria da população.

Para Mango, o Conselho Nacional da Juventude está fragilizado, por falta de meios e recursos. Admite que não há muita solidariedade entre os jovens angolanos, “é cada um por si e  Deus por todos ”. E assume que temos uma juventude mais dialogante mas “muito dependente de práticas antigas”, uma juventude que “ainda tem muitos dos vícios dos mais velhos”. Os jovens, defende, devem repensar o seu lugar de acordo com a asserção (atribuída a John F. Kennedy) “Não perguntes o que é que o teu país pode fazer por ti. Pergunta antes o que é que tu podes fazer pelo teu país”.

Para terminar, assinala que, desde o congresso de 2015, a direcção da UNITA tem imensos jovens que se sentem ouvidos no partido do galo negro. Sobre o futuro líder do partido, prefere não falar por agora, mas garante que a JURA apoiará em uníssono, depois de um debate interno, um candidato e só um candidato.

Rafael Aguiar, JPA

O líder da JPA tem uma vantagem em relação à coligação eleitoral CASA-CE, na sua organização não há representantes dos diversos partidos, só há militantes da CASA-CE – o que nesta altura, e com a persistente crise na coligação, não é um pormenor. Assume que a JPA é absolutamente pró-transformação em partido, e que a CASA-CE tem de resolver, quanto antes, a questão da diversidade na unidade, porque, “em qualquer parte do mundo, um partido político é um partido político, e a CASA-CE tem dois problemas: tem de agir como partido e provar, ao mesmo tempo, que é um partido, fazendo com que as pessoas não tenham receio de algo trémulo ou fragmentável”.

Coloca a CASA-CE num espectro de centro-esquerda “em função da diversidade da própria coligação” e pela forma como entendem que dever funcionar o sistema económico, onde o papel do Estado deve ser mínimo. A quem cabe “criar balizas e monitorizar” porque “temos um processo de desigualdades sociais brutais” que só a intervenção do Estado pode minimizar.

Considera que o MPLA tem como ponto forte os seus gabinetes de estudo e análise, que lêem muito bem a realidade e que sempre procuram antecipar-se aos factos, ainda assim, ressalta, coube à CASA-CE liderar um verdadeiro sentido de mudança e alternativa. Rafael Aguiar admite, no entanto, que a coligação “perdeu esse fôlego”, e acrescenta que os resultados das eleições autárquicas podem ser fundamentais para a sobrevivência da coligação.

Numa outra coisa Aguiar e Mango estão de acordo: as eleições autárquicas devem ser feitas em todo o País. Rafael Aguiar diz mesmo que o processo autárquico devia ser aproveitado para promover o debate sério e consequente entre a sociedade civil e os partidos políticos. A realidade teima em contradizê-lo.

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