Reconciliar a memória

Ser regional não implica ser menor em qualidade. Ser angolano deixaria de ser uma amálgama homogénea de elementos atribuídos a partir de conceitos perversos como a nossa dita ocidentalização comparativamente a outros países africanos.

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Esta semana começou com Lucas Ngonda a apelar à reconciliação da memória colectiva nacional com o reconhecimento do 15 de Março como feriado nacional. Esta ideia, de uma memória nacional discutida em plano político e que tem aí uma clara arena de dissenso, dialoga com uma outra também política mas cuja manutenção é feita essencialmente por opinion makers e alguns tudólogos de serviço que perpetuam uma ideia ligeira do colonialismo português e, consequentemente, da luta de libertação.

Lucas Ngonda tem razão quanto à necessidade de reconciliação, e essa questão não diz respeito apenas aos feriados nacionais, mas também às figuras publicamente celebradas ou ainda às histórias contadas. Vejamos, apesar do imenso reconhecimento da estética e produção cultural Cokwe, sobre a sujeição daquele povo à Diamang, comentada de forma crítica por Gilberto Freyre ainda nos anos 60, pouco se diz. O que resulta na repetição de um gesto de apropriação não muito distinto do de José Redinha ao assinar os desenhos na areia. A promoção da cultura da paz, por exemplo, deverá calar as histórias de guerra e dor? Não me refiro com certeza à batalha do Cuito Cuanavale, mas às outras pequenas batalhas que resultaram em famílias separadas, em filhos órfãos, em percursos destruídos. Reconciliar a memória vai exigir de nós sair da narrativa confortável oferecida pelo partido no poder e aceitar outras histórias e contribuições e mesmo aceitar o quão diverso é ser angolano neste nosso imenso País.

Para mim, a ideia é profundamente radical, no sentido em que propõe questionar a actual construção da angolanidade, obrigar-nos-ia por exemplo a repensar o significado do que chamamos folclore e a redefinir a identidade angolana, ainda que alguns traços sejam assumidamente regionais. Ser regional não implica ser menor em qualidade. Ser angolano deixaria de ser uma amálgama homogénea de elementos atribuídos a partir de conceitos perversos como a nossa dita ocidentalização comparativamente a outros países africanos. Sobre isso parece-me óbvio o eco da cultura assimilacionista portuguesa e a nossa boa aprendizagem, mas… bom, talvez esse seja também um traço regional do litoral, quem sabe?

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