Presidente, mude já o MPLA

Editorial do Jornal Vanguarda publicado ontem, sexta-feira, 7 de Setembro de 2018, um dia antes do VI Congresso Extraordinário do MPLA.

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Por: António Pedro*

João Lourenço tem a oportunidade de marcar a história de Angola com reformas que agregam ingredientes amargos para adocicar a vida dos angolanos no médio e longo prazo. Amanhã, 8 de Setembro, será um dia memorável com a eleição como presidente dos camaradas.

Mude já o MPLA, camarada presidente. Ataque os problemas causados pelo seu partido nas últimas décadas. A principal reforma que o senhor pode fazer é a separação dos negócios da política – a mãe de todas as reformas. O sistema não está a funcionar, porque ainda não se deu o grito do Ipiranga que é,
tão-somente, o respeito pela Lei da Probidade Pública, onde concurso público, burocracia e favorecimento fazem um desagradável triplo casamento.

Começa a haver preocupações reais no País de separar o poder político dos negócios. Se o senhor presidente, agora que assume o MPLA, não resolver este cancro, a sua reputação ficará registada na história como mais um do mesmo.

O problema não é teórico. É real. Porque, em teoria, a lei exige que sejam respeitados os deveres de lealdade, de imparcialidade e de probidade. Na prática, não funciona bem assim.

Por que razão ministro, governador provincial, administrador municipal, gestor público, lançaria concurso público sobre certa empreitada e concorreria também com a sua própria empresa ou com empresa onde detém participações indirectas?

Senhor presidente, quando um político é também empresário no activo, banqueiro nas horas vagas, caixeiro-viajante aos fins-de-semana, está o caldo preparado para a asneira.

Aos nossos políticos, exige-se-lhes foco, vigor, ética e pensamento para o futuro, porque no final do dia não passará de um simples mortal e cabe-lhe deixar o seu nome ligado às obras de grande impacto, para os angolanos, e não perigando as gerações vindouras.

Os políticos produzem as leis, os banqueiros com estas leis financiam bons projectos que são protagonizados pelos empresários. Infelizmente, as três profissões em Angola não estão segregadas, prejudicando o crescimento e o desenvolvimento do País, perigando a sustentabilidade da paz política e das finanças públicas, neste momento, não saudáveis.

Mude este quadro, camarada presidente. E tudo começa pelo seu partido – que é o motor do Governo. Se o senhor presidente cruzar os braços, na próxima década não seremos nada mais do que um povo pobre com ideias de ricos. Não passe cheques políticos em branco aos seus camaradas, senão continuarão a atrasar a arrumação do País, e o MPLA, cuja gestão político-partidária está agora em suas mãos, correrá o risco de deixar de ser um baluarte de democracia em África.

*Director do Jornal Vanguarda

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