Corrupção Moral

Há uma geração de políticos, hoje na casa dos 60 aos 70 anos, que esteve ao leme da governação do País e que adiou o futuro de muitos angolanos. A geração de políticos que geriu o País não atendeu ao chamado da governação, esqueceu a ideia de serviço público e que lhe cabia prezar pelo bem-estar dos angolanos e pela repartição mais equitativa da riqueza gerada durante décadas.

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Por António Pedro

Mais de um milhão de angolanos, hoje com idade entre 40 e 43 anos (cálculos com base no último censo populacional feito pelo INE), fazem parte de uma geração perdida, com sonhos frustrados, objectivos traçados na juventude muito distantes de concretização, ou seja, auguram o bem-estar num país que só agora vai começar.

Há uma geração de políticos, hoje na casa dos 60 aos 70 anos, que esteve ao leme da governação do País e que adiou o futuro de muitos angolanos. A geração de políticos que geriu o País não atendeu ao chamado da governação, esqueceu a ideia de serviço público e que lhe cabia prezar pelo bem-estar dos angolanos e pela repartição mais equitativa da riqueza gerada durante décadas. As reformas que o Presidente da República tenta levar por diante, que comparamos com outros reformistas como Deng Xiaoping, Xi Jinping e o príncipe herdeiro Mohammed bin Salman (MbS), da Arábia Saudita, são analisadas nesta edição. A partir dos três casos podemos estabelecer um padrão: fizeram-se reformas económicas a par de detenções no alto escalão da governação, por corrupção. Para Deng Xiaoping, o combate à corrupção faz-se de um número devastador de pessoas, que não pode ter outro nome senão o de purga. E as reformas postas em marcha provocaram não pouca resistência da velha guarda do regime chinês. Xi Jinping tem liderado uma implacável campanha anticorrupção que, entre 2012 e 2017, puniu mais de um milhão de funcionários públicos, entre os quais, mais de 170 ministros e vice-ministros, demitidos ou condenados com duras penas de prisão. Em final do ano passado, o príncipe MbS mandou prender muitos membros da casa real saudita sob acusação de corrupção. Uma atitude considerada ousada, com o príncipe a anunciar que a corrupção não terá mais lugar no país do Golfo Pérsico.

Angola não está distante destes cenários. O importante é que o sistema judiciário não se transforme em activismo político, mas que actue de forma séria. O Presidente da República não pode ignorar que os tigres da corrupção que estão a ser afastados da máquina pública e/ou partidária venham a formar um novo partido político, saído das entranhas do MPLA, numa tentativa de manter um status quo de poder e sobrevivência política. Pode ser um erro se o fizerem. Mas também será um descuido se João Lourenço ignorar essa ameaça, quer real, quer putativa.