Mais uma volta a Pequim, mas desta vez para trazer financiamento

Na bagagem da comitiva angolana que foi à China em Setembro, veio um ‘quase acordo’ de mais um financiamento. Agora, o PR não conta voltar de mãos vazias.

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Por Ricardo David Lopes

O presidente da República visitará Pequim nos próximos dias 9 e 10, onde vai reunir com o seu homólogo, Xi Jinping, pouco mais de um mês após o encontro que tiveram à margem do III Fórum de Cooperação China-África (FOCAC). Na bagagem, João Lourenço leva a intenção de regressar com contratos de financiamento aprovados, o que irá aumentar ainda mais a pesada dívida angolana ao país. Num guia para investidores que distribuiu na semana passada em Nova Iorque, à margem da assembleia-geral da ONU, num encontro com gestores e empresários norte-americanos,

Angola designou a China como o seu maior investidor e o maior parceiro comercial. Mas a China é, sobretudo, o maior credor do País, com uma dívida que, no final do ano passado, segundo o prospecto da emissão de eurobonds realizada em Maio, ascendia a 21,5 mil milhões USD (ver gráficos nesta página).

No último FOCAC, o presidente chinês anunciou um ‘pacote’ de 60 mil milhões USD para financiamentos a projectos em África, no formato de assistência governamental e através de investimento e financiamento de instituições financeiras e empresas. Angola quer ficar com uma parte deste ‘bolo’, depois de, em Setembro, não ter havido tempo para as negociações que o País pretendia acelerar em Pequim. No final da visita, o ministro das Relações Exteriores, Manuel Augusto, anunciou que os dois países tinham concordado adiar as negociações para a definição de um novo quadro geral de cooperação financeira. Na altura, o ministro revelou que os dois Estados se encontravam na fase final das negociações, e que assim seria possível “concluir o acordo em breve”. “É possível que o acordo (sobre a definição do quadro geral de cooperação financeira) seja assinado na China ainda este ano”, referiu Manuel Augusto, avançando que os chineses admitem financiar projectos em África, mas agora, exigem mais “transparência” aos países do continente negro. Na comitiva de João Lourenço estarão, pelo menos, o ministro das Relações Exteriores e o governador do Banco Nacional de Angola (BNA), José de Lima Massano.

O PR, recorde-se, afirmou em Setembro, em Pequim, que deseja um incremento do investimento directo de empresas chineses na produção de bens de consumo em Angola, e sublinhou que o investimento deve ser feito através do estabelecimento de parcerias “mutuamente vantajosas” com empresários angolanos, para que haja partilha de tecnologia e de conhecimento científico, e apoio na formação de quadros nacionais. Mais dinheiro a caminho.

Mais dinheiro a caminho

Em cima da mesa estará um pacote de cerca de 11 mil milhões de euros em novas linhas de financiamento para vários projectos, em especial junto a bancos comerciais estatais da China, um país que já tem cerca de 250 mil cidadãos em Angola, uma comunidade por vezes criticada por não se integrar com os nacionais e viver em ‘guetos’ junto às obras que operam e lideram.

Na semana passada, um analista da Fitch Solutions afirmou que “Angola vai continuar a depender do financiamento da China durante os próximos anos”, apesar do esforço de diversificação das fontes de crédito. “Vemos Angola a dar alguns passos para diversificar as fontes de financiamento, mas vai continuar altamente dependente do financiamento chinês nos próximos anos”, declarou Tettey Addy.

O analista lembrou que Angola tem sido “um dos principais beneficiários de investimento da China nos últimos anos”, pago com petróleo, porque os chineses pretendem diversificar o acesso às matérias-primas, como o crude, e porque o País tem mais “facilidade” em pagar com petróleo do que com divisas. “Esta relação aprofundou-se nos últimos anos, e no ano passado 43% das exportações de Angola foram para a China, tornando este país o terceiro maior destino das exportações angolanas, a seguir à Rússia e à Arábia Saudita“, afirmou o analista.