Política da avestruz

O Presidente da República dificilmente conseguirá atrair investimento estrangeiro de qualidade para empresas públicas com perspectivas de alienação aos privados, se se prevalecer a ideia segundo a qual o Estado precisa de ter 55% do capital.

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Por António Pedro / Director do Jornal Vanguarda

O Presidente da República dificilmente conseguirá atrair investimento estrangeiro de qualidade para empresas públicas com perspectivas de alienação aos privados, se se prevalecer a ideia segundo a qual o Estado precisa de ter 55% do capital. Somente investidores que estão a morrer pela Europa, com fraca credibilidade nas grandes praças financeiras, e precisam sobreviver em países africanos menos estruturados, como Angola, ou investidores considerados Pessoas Politicamente Expostas (PEP, na sigla inglesa) na Europa, é que provavelmente aceitarão tais propostas porém cujas consequências para o Estado, em termos de reputação, custará caro à imagem do País conforme acontece nos dias de hoje.

Quando o Presidente da República discursou no Parlamento Europeu em Estrasburgo, França, ofereceu a imagem de uma nova Angola em relação ao mundo, e não é esta que investidores da Alemanha, França, Bélgica, EUA, esperam para fazer negócios – onde o Estado aliena empresas públicas detendo a maioria do capital. Qual é o receio de o Estado ficar com participações entre 15% a 20%, conforme ocorre nas grandes praças financeiras, e regular os mercados para arrecadar maior volume de receitas em impostos? Numa coisa estaremos certos. O Ministério das Telecomunicações vai afugentar investidores externos de qualidade com a ideia ou proposta de se alienar apenas 45% da Angola Telecom. Nem as companhias do Top 5 mundial com expertise no segmento das telecomunicações aceitam propostas similares, em realidades como a angolana onde a má gestão de empresas públicas é uma marca, ao longo de décadas, e a aprovação de contas pelo então ISEP eram feitas quase sempre com reservas.

A Angola Telecom é a única empresa pública de telecomunicações na SADC que não gera lucros aos Estado e não tem um plano de negócios que lhe permite, por exemplo, concorrer no mercado europeu. O Porto de Luanda, a TAAG, e outras, não fogem à regra. Se o Estado não gerou lucros com os gestores que estão em empresas públicas, gestores que não conseguem gerir empresas sem subsídios do Estado, quer cativar 55% mantendo tais gestores ou trocando por outros que fracassaram noutras empresas públicas? O problema é político. Não adiante ignorá-lo. Cabe ao Presidente da República tomar uma decisão.