A justiça social como garantia da verdadeira paz

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Por Jerónimo Cahinga /Vice-reitor da Universidade Católica de Angola

Ao longo da sua vida terrena, Jesus mostrou claramente como a diferença de estado social entre os homens, baseada na riqueza, é contrária a vontade de Deus. A parábola do homem rico e do pobre Lázaro (Lc 16,19-31) adverte que a vida luxuosa de alguns, aliada à indiferença diante da extrema miséria de tantos outros, lesa gravemente o princípio da igualdade fundamental entre os homens. Jesus vê o presente, o pobre enfermo, faminto, à porta do rico.

A única injustiça nesta parábola (que à primeira vista não parece sê-lo) consiste em «vestir-se de púrpura e linho e banquetear-se todos os dias lautamente» (Lc 16,19), indiferente ao mendigo que jaz na sua porta. Para Jesus isto é suficiente para não passar para o lado da felicidade eterna, onde se encontram Lázaro e Abraão. Não é preciso roubar, perjurar, matar, para sofrer a solidão infernal. Basta ser insensível à desgraça alheia.Os bens deste mundo devem ser partilhados por todos, de modo que todos possam ter direito de viver uma vida digna de seres humanos (v. 21). Numa outra passagem do Evangelho, Jesus dá-nos a entender que uma grande parte da humanidade pode ficar excluída do convívio com Deus e com os irmãos (Mt 25,41): «Afastai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, que está preparado para o diabo e para os seus anjos» (Mt 25,41).

O aviso que Jesus nos deixa aqui, de que é possível sermos excluídos do reino da felicidade eterna, por causa da indiferença e da recusa em assistir os mais necessitados, demonstra como não pode haver paz num mundo de fome, de miséria material, de sofrimento, de opressão, de humilhação e de desigualdades sociais. Jesus não condena os da sua esquerda por terem feito o mal, mas pelo simples facto de terem ignorado os seus irmãos necessitados, por não terem sido solidários com as sociedades mergulhadas na desgraça, ocupados, talvez, em acumular o máximo de dinheiro e de outros bens para a sua segurança pessoal e garantir o bem-estar da sua família.

Mais ainda. Numa feliz página do seu livro, “Mesa Redonda dos Animais”, F. Kapitiya afirma que a paz não vem apenas do poder bélico, da capacidade económica, da habilidade dos dirigentes políticos e da perspicácia do corpo militar. O seu e se há um país a reconstruir, depois da guerra, o objecto de reconstrução não é apenas unir as províncias através de belíssimas estradas, erguer arranha-céus antes inexistentesberço é o coração humano, sobretudo os seus ideais frustrados. E se há um país a reconstruir, depois da guerra, o objecto de reconstrução não é apenas unir as províncias através de belíssimas estradas, erguer arranha-céus antes inexistentes, distribuir bens de primeira necessidade ao povo carenciado, nem mesmo só apresentar planos de desenvolvimento do último grito. Antes de se pensar numa reconstrução total do país é necessário pensar no homem, sujeito da paz.

Portanto, há que reconstruir primeiro a pessoa humana. A justiça, o perdão e a reconciliação são os únicos caminhos que conduzem a África a uma paz autêntica e definitiva e a um desenvolvimento sustentável.

O paraíso de Deus é a assembleia de irmãos e irmãs, reconciliada com Deus e entre si. Concluindo Os entraves apontados atrás são possíveis de serem desarraigados e as sugestões feitas, possíveis de serem aplicados. Basta só um pouco mais de sacrifício, menos egoísmo e muita vontade política. A Igreja está convencida disso. Por isso, ela olha para um amanhã da África promissor, radioso e capaz de dar uma volta aos desafios que hoje parecem insuperáveis. A Igreja não partilha da ideologia dos afro-pessimistas que mais não fazem senão enterrar os poucos, mas ingentes, esforços e sacrifícios que se têm feito no sentido de levantar a moral do africano e do seu belo continente.

O Papa Emérito Bento XVI, quando da sua visita ao nosso País encorajou-nos com estas palavras, cito: “Angola sabe que chegou para a África o tempo da esperança. Cada comportamento humano recto é esperança em acção. As nossas acções nunca são indiferentes aos olhos de Deus; e também não o são para o progresso da História. Meus amigos, armados de um coração íntegro, magnânimo e compassivo, podereis transformar este continente, libertando o vosso povo do flagelo da avidez, da violência e da desordem e guiando-o pela senda daqueles princípios que são indispensáveis em qualquer democracia civil moderna: o respeito e a promoção dos direitos humanos, um governo transparente, uma magistratura independente, uma comunicação social livre, uma administração pública honesta, uma rede de escolas e de hospitais que funcionem de modo adequado e a firme determinação, radicada na conversão dos corações, de acabar de uma vez por todas com a corrupção”, fim de citação. Este é o mesmo Papa que definiu a “África um ‘pulmão espiritual do mundo’”, pois, segundo ele, “o continente mostra uma reserva de vida e de vitalidade para o futuro no qual podemos confiar”.

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