Medidas expansionistas ou restritivas?

Ao esmiuçar as formas como a União Europeia e os Estados Unidos da América abordaram a saída da crise, baseadas essencialmente na restrição versus expansão monetária, é lógico lançar os olhos sobre as medidas de políticas económicas e financeiras adoptadas dentro das nossas fronteiras.

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Por Pedro da Cunha Neto|Economista*

A nossa memória colectiva e individual ainda tem bem presente as causas, consequências e a forma como foi sendo debelada a crise ocorrida em 2007 e 2008, quando nos lembramos das crises económicas e financeiras e sua abordagem em termos de compreensão e equacionamento.

Outras crises tiveram lugar ao longo do século passado, nomeadamente a grande depressão da economia americana dos anos 30, a falência dos tigres asiáticos, as perturbações das economias latino-americanas, como a do México, Argentina, etc., que, para tirarmos algumas ilações acautelatórias, poderemos analisar em próximos desenvolvimentos.

O que se passou de concreto com a crise de 2007 e 2008? Estamos lembrados que, segundo as informações amplamente divulgadas nos media, o epicentro foi localizado nos Estados Unidos da América, naquilo que se chamou o “estouro da bolha imobiliária”.

Por outras palavras, significou, numa primeira fase, um forte incremento num negócio que o sistema especulativo promoveu com argúcia e subtileza, atraindo construtores, financiadores e compradores, com a promessa de que sairiam todos a ganhar.

A remuneração dos financiadores era tão atrativa que quase todo sistema financeiro mundial aplicou as suas disponibilidades nos bancos americanos.

Quando, numa segunda fase, os compradores das casas começaram a manifestar a sua inadimplência em honrar os compromissos junto dos credores, a bolha estoirou, isto é, a máquina que tinha sido montada para funcionar sem percalços parou afectando, em cadeia, todo o sistema económico e financeiro à escala mundial, quer o do sector produtivo, quer o do prestador de serviços, pois ninguém pagava a ninguém.

O dinheiro escasseou. O preço das commodities despencou e a crise se instalou. A abordagem para a saída da crise e esta é a razão principal desta contribuição à guisa de reflexão, não foi uniforme em todos os quadrantes do globo. Vamo-nos deter aos dois principais blocos económicos e financeiros: O da União Europeia e o dos Estados Unidos da América.

Ainda estamos bem lembrados das medidas adoptadas pelo Banco Central Europeu e secundadas pelo Fundo Monetário Internacional, que em síntese, impuseram um clima de austeridade, sem precedentes na história económica e financeira da Europa.

Cortes nos gastos públicos (salários, investimentos, etc.), aumento dos impostos (sobre o rendimento das empresas, das pessoas singulares e alternativos antes não tributáveis), para além das restrições ao acesso ao crédito. Países então denominados “PIGES”, Portugal, Itália, Grécia, Espanha e Irlanda, foram os que mais estiveram sob a lupa da então chamada troika integrada pelo Banco Central Europeu, Fundo Monetário Internacional e o Euro Grupo.

A razão principal alegada nessa altura era, por um lado, evitar a contaminação dos outros países da união pelo vírus da inflação e dos créditos soberanos mal parados. Os Estados membros tinham, em nome da estabilidade económica e financeira da União, passar a viver de acordo com as suas reais possibilidades.

Com a impressora do dinheiro centrada no BCE, com os bancos domésticos sem recursos, as fontes disponíveis do BCE, FMI e Mercados, estavam condicionadas às medidas de contenção ditadas pela troika. Em poucas palavras, o que a troika exigia era a garantia do reembolso dos empréstimos que os países carentes de dinheiro fresco precisavam.

Usando a terminologia dos experts, o BCE e sua comitiva, optou, então, por políticas restritivas, quer do ponto de vista fiscal, quer monetário, já que o cambial não se coloca no espaço de moeda única.

Do outro lado do Atlântico, lá onde a crise veio à luz do dia, a FED, congénere do BCE, seguiu por outras vias. Baixou as taxas de juro e deu luz verde para que o governo federal aumentasse os gastos públicos financiados por deficits orçamentais.

Na prática, abriu a bolsa e não obstante algumas cautelas em não salvar algumas instituições que tinham gerido mal os recursos próprios e alheios, como por exemplo o Banco Lehman Brothers. Injectou no sector imobiliário e produtivo rios de dinheiro, retirando da falência a indústria automobilística (General Motors e Chrysler) entre outros.

Verdade se diga que não tomou estas medidas sem a garantia de que o reembolso nas datas de vencimento estava garantido, quer nacionalizando quer intervencionado na gestão das instituições financiadas. Na gíria dos especialistas nestas matérias, a esta atitude se chama “expansão monetária”.

Sem aprofundar muito esta questão, que bem merece uma análise reflectiva, que prometemos aflorar nas próximas semanas, constatamos que, por particularidades da economia e do sistema financeiro americano, a FED tem a impressora dos dólares sob seu controlo e à medida que se apercebe que a economia está a secar abre as condutas e inunda o mercado real. Problemas de contaminação, de inflação e de deficits, têm relevância muito limitada, porque o país é somente um, assim como é o orçamento federal.

Ao esmiuçar as formas como a União Europeia e os Estados Unidos da América abordaram a saída da crise, baseadas essencialmente na restrição versus expansão monetária, é lógico lançar os olhos sobre as medidas de políticas económicas e financeiras adoptadas dentro das nossas fronteiras.

Constatamos que o pacote de medidas está mais próximo do figurino da União Europeia, quando a nosso ver, observadas as proporções das diferenças das duas economias e “mutatis mutandis”, o roupeiro americano teria melhores alternativas. Prometemos voltar ao tema em breve, no quadro de uma série de artigos sobre “medidas expansionistas ou restritivas?”.

*Antigo governador do Banco Central 

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