Este MPLA já foi para jovens

Com 70% da população angolana com menos de 30 anos, há uma pergunta prioritária para o MPLA: como captar o voto desta maioria esmagadora da população e alargar o espectro eleitoral acima dos 61,1% (número obtido pelo líder do partido nas Eleições Gerais de Agosto de 2017). Com a dinâmica que João Lourenço tem vindo a imprimir ao país, e fazendo tão diferente do seu antecessor, qualquer resultado eleitoral, em 2022, abaixo deste número, pode ser tido como uma derrota.

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Por Ana Sousa

João Lourenço faz a sua parte, ainda que tenha vindo, claramente, a optar pelo país sacrificando o partido. Cabe então ao MPLA fazer muito mais do que o resto. E o que é que o partido está a fazer? Boavida Neto não fala para os jovens, Paulo Pombolo não fala para os jovens, Luísa Damião fala mais ou menos para os jovens (mais para as mulheres), e Sérgio Luther Rescova é um líder em fim de ciclo, que acha que fala para os jovens.

Quem o ouviu, como nós, no último Congresso Extraordinário do MPLA, em Setembro passado, não queria acreditar no discurso feito de slogans e palavras de ordem, em que, provavelmente, já nem o próprio acredita, mas que interiorizou à medida que tomou consciência que o ‘M’ é um partido de orientações, mais do que de ideias ou ideologia. Nada que lhe peça excessiva criatividade, e Rescova não se esforça, alinhavou palavras de acordo com a cartilha do partido, num discurso em tom próprio mas sem capacidade mobilizadora. E se substituirmos ‘motivar’ por ‘inovar’ é ainda mais desconcertante. Não conhecemos quaisquer iniciativas do partido para os jovens, nada digno de nota, e sobre políticas concretas para a juventude temos quase nada. Ou mesmo nada. E que ninguém se iluda, os jovens deste país estão famintos de conhecimento e informação, mesmo quando só têm dinheiro para matabichar e pouco mais, têm telemóveis, e com mais ou menos recarguinha, estão ligados às redes sociais, absorvendo sem filtros ou mediação tudo o que lhes é transmitido. Temos assistindo, no Cazenga, às iniciativas promovidas pelo jovem Osvaldo Mboco e podemos testemunhar que as ‘Oficinas do Conhecimento’ têm uma capacidade assinalável de mobilizar jovens inquietos, que colocam perguntas e se preocupam, ainda que de uma forma difusa, por entenderem identidade e políticas identitárias.

Jovens, bem ou mal exigentes, que, provavelmente, começam a perceber que o seu esforço intelectual os pode levar onde antes só chegavam os jovens do partido. O MPLA perde o seu lado aspiracional e o glamour ‘do clube T’, e os jovens ganham acreditando no seu mérito. O ‘M’ ainda não deixou de ser a muleta para a ascensão social, mas é uma questão de tempo. E é no tempo que está o risco. Em quem vai votar essa enorme massa independente, mais exigente e crítica? Num partido de poder que não lhe dá emprego nem futuro? Podíamos discorrer agora sobre a história do partido e lembrar que José Eduardo dos Santos foi um dos mais jovens presidente do continente africano, e que transformou João Lourenço no mais jovem governador de Benguela, mas que depois arrepiou caminho e bloqueou o acesso ao poder a uma ou duas gerações.

Armando Manuel ou Sérgio Santos foram esboços mal conseguidos do que poderia ter sido uma transição geracional, muito para além “dos nossos filhos” no Comité Central. O velho leão mostrou-se relutante em abrir espaço aos novos e adiou a possibilidade do actual líder o fazer ao transformar em congresso ordinário o último congresso de 2016. Aguarda-se com a impaciência da juventude temperada pelo formalismo dos mais velhos o próximo Congresso Ordinário do MPLA, em 2020, onde é previsível que muito mais mudará, e tem de mudar, a começar, principalmente, pela JMPLA. Até porque há desafios igualmente interessantes lá fora e que passam por aqui, por Angola. Pelo continente africano. E não seria má ideia se fosse o MPLA a tomar em mãos estas questões, afinal, é o partido do poder. “A Europa já não constitui o centro de gravidade do mundo”, afirmou, recentemente, Achille Mbembe, numa entrevista a um jornal português. O africano, nascido nos Camarões, e autor de ‘Crítica da Razão Negra’, é “dessa perda de centralidade, da ‘autoprovincialização’ da Europa como acontecimento fundamental que se devem retirar conclusões para o continente africano”.

Atravessando entre possíveis conclusões temos que, para Mbembe, África é a “última fronteira do capitalismo”, porque é em África “que encontramos hoje as últimas jazidas de quase todos os recursos de que precisa o capitalismo para funcionar no futuro”, e, entre eles, “os recursos demográficos” ou “os recursos minerais, botânicos, os recursos das espécies vivas, orgânicas e vegetais”, acrescentando que “o drama de África, na longa duração, foi a sua incapacidade para aproveitar o melhor da sua população e o melhor do seu trabalho e o melhor das suas riquezas”. Voltemos então à política doméstica, e voltamos, inevitavelmente, a João Lourenço, que tudo têm feito para abrir o país ao mundo e o partido à sociedade. Não temos a certeza se o Presidente tem um projecto próprio para o país, o seu discurso diz que sim, na prática vamos esperar para ver, num movimento expectante. Quanto ao partido que lidera, vamos esperar sentados que a pesada máquina partidária se renove. Até na forma como cada militante se veste para acorrer às iniciativas do partido.

 

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