Porque é que vamos falar de Luísa Damião

Há um momento nas nossa vidas em que reconhecemos que preferimos inimigos assumidos a amigos obscuros.

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Por: Ana de Sousa  

“Devem ter pousado o caixão no terreno. Se bem me lembro, perto estaria a lixeira. Discutimos bastante a necessidade de tirar a lixeira dali, demasiado perto do centro do poder, uma vergonha e a prova de que pouco nos interessávamos pelo meio ambiente. Mas havia sempre dificuldades de última hora, constrangimentos, e por mais que os ministros discutissem de como e quando fazer, outros assuntos nos distraíam e a lixeira permanecia no mesmo sítio”.

Pepetela nas últimas páginas de ‘Sua Excelência de Corpo Presente’, quando nos narra, com um sarcasmo próprio: “Vão me enterrar numa lixeira. Um presidente soterrado por lixo, deve ser uma metáfora que não entendo”. É claro que Pepetela (e João Lourenço) entendeu a metáfora muito antes de muitos nós, que a estamos a entender agora.

Na semana em que a entrevista de Álvaro Boavida Neto, secretário-geral do MPLA, se transformou na tempestade política, quando uma chuva intensa de críticas transformou a lixeira em pântano, ocorrem-me várias coisas, e, entre elas, o livro de Pepetela e pensar no futuro papel de Luísa Damião, a vice-presidente do partido, que será, muito provavelmente, a próxima vice-presidente do país. Quando o Presidente João Lourenço sacudir todo o legado de José Eduardo dos Santos da governação (o que não significa eliminar o seu legado e o lugar que tem na História do país), e fechar o ciclo vicioso, que, algures, o partido permitiu (e se permitiu) ao antigo presidente, pressionados ou calados com as listas de bens a esbulho geral, quando, no Comité Central, a dedo e com números, JES apontava quem tinha o quê, para, depois, se permitir entregar os maiores recursos aos próprios filhos, mesmo porque ‘quem parte e reparte e não fica com a melhor parte ou é tolo ou não tem arte’, sendo que foi a exibição quase despudorada dessas qualidades (entre o Fundo Soberano e a Sonangol), que lhe foi fatal. E quando isso acontecer, quando a lixeira a céu aberto for erradicada “de demasiado perto do centro do poder”, nessa altura, e como número dois na lista do MPLA à presidência, em 2022, estará Luísa Damião. Também nessa altura, o país e o partido estarão em lugares mais respiráveis.

O que não significa que os dilacerantes problemas sociais estejam resolvidos, mas há que começar por algum lado, e limpar o lixo é uma questão de sanidade. Até lá, resta-nos ficar surpreendidos com o processo que levará à efectiva depuração do país e do MPLA, o que pode passar, naturalmente, pelo afastamento do actual secretário-geral Boavida Neto – sendo que não aposto as minhas fichas todas nesse número. Confesso que numa primeira leitura da entrevista, quis ler nas palavras do SG do MPLA quem pensa pela sua própria cabeça e o afirma, mesmo que isso não seja absolutamente consentâneo com o que diz o líder do partido.

Quis ler um MPLA mais democrático, mais aberto, onde eventuais divergências de opinião passam para o espaço público sem que daí advenha qualquer catástrofe. Estou enganada, dizem-me, e de forma quase estridente. Dizem-me que actual SG se prestou a dar voz a quem se opõe ao actual Presidente do país e do partido, e diz que não são só alguns, são cada vez mais, identificados entre a alta financeira e os supremos interesses empresarias, que arrastam uma classe média bem-pensante (ou hesitante) em conspirações nos restaurantes ou nas saunas dos melhores hotéis da capital.

Que não é nada disso, continuam, que Boavida Neto tem ‘telhados de vidro’ e contas a prestar à justiça, e que têm a ver com o (des)governo na província do Bié e que numa qualquer jogada (para mim incompreensível), veio, antecipadamente, dizer que “não estou de acordo que se prendam pessoas por causa de factos ocorridos até 2012” (e explica porquê). Ao mesmo tempo que adianta que “tem os seus bens declarados” e que estão na Procuradoria-Geral da República (um bom momento para testar a eficácia da Lei da Probidade).

Na mesma linha, dizem-me que Boavida Neto é a caixa-de-ressonância da facção do presidente emérito (e é aqui que começo a pensar que entrámos no absurdo). Sobre o presidente emérito, Boavida Neto diz o que outros já o disseram, (sendo que ele é SG do partido, é um facto): “Cada cabeça uma sentença, por cada sentença cada um deve responder por ele, por aquilo que faz e diz”, sublinhou. E acrescentou: “nunca, em nenhuma circunstância vou estar contra o camarada José Eduardo dos Santos”. E ainda vai dizendo que tem uma postura diferente, “sou verdadeiramente independente de pensamento e liberdade”.

E é também por isso, e porque palavras como “independente de pensamento” e “liberdade” têm para mim alguma importância, que acredito que Boavida Neto está a desempenhar, e bem, o seu papel como SG e está a fazer um grande favor ao partido. Está a dar uma oportunidade a todas as vozes dissonantes do MPLA para se assumirem. Está a desafiar uma qualquer minoria silenciosa (poderosa, e por isso mesmo danosa, ameaçadora) que existe no partido.

Há um momento nas nossa vidas em que reconhecemos que preferimos inimigos assumidos a amigos obscuros. E se, tomando a asserção churchiliana, “coragem é uma decisão”, temos que jogada a jogada, acabaremos por assistir ao xeque-mate de João Lourenço. Está prometido. De uma forma ou de outra, voltamos à metáfora de Pepetela, o caixão do antigo poder tem de ser enterrado numa lixeira ou em qualquer outro lugar. Sacrificando Álvaro Boavida Neto? Não sei. Dando a Luísa Damião um papel mais relevante na estrutura do partido, que não seja cumprir agenda partidária como se ainda fosse dirigente da OMA? Certamente. E também porque Angola não é a República Democrática do Congo, o país não pode dar espaço à pulsão autocrática de meia dúzia, apesar de tudo, JES não deixou que acontecesse.

Quem, de momento, congemina um qualquer golpe palaciano, é melhor que tenha em conta esse exemplo endémico, um risco para a região e que condena o desenvolvimento daquele país, saqueado por ávidos apetites de potências internacionais, com a conivência cínica da elite que governa, e se governa, com a guerra, a fome e as doenças corroerem um dos mais ricos países da África Central, aqui tão perto. Quem congemina um qualquer golpe no partido, é bom que pense que a sociedade angolana, urbana e jovem, maioritária, não deixaria de sancionar seriamente o MPLA, retirando-lhe o poder, se se voltasse a assistir a golpes pouco democráticos no partido, à semelhança do que aconteceu no passado.

 

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