O modelo cooperativo, uma alavanca para o desenvolvimento da agricultura em Angola (Parte I)

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Por: Sylvain Itté*

A agricultura e a diversificação da economia encontram-se entre os desafios fundamentais dos próximos anos e serão decisivos para o futuro de Angola. Nesta perspectiva, as vantagens da agricultura familiar para o desenvolvimento do país são incontestáveis: substituição às importações, criação de empregos, combate contra a pobreza, redução das assimetrias regionais.

Angola possui um potencial ímpar no domínio da agricultura. Antes de 1975, o país era auto-suficiente em todos os cultivos de base tais como a mandioca, o milho, o milho-miúdo ou o sorgo, e exportava várias produções agrícolas adaptadas ao clima do país, como o café, o algodão, a cana-de- açúcar, a banana e o tabaco.

Angola até estava colocado no top dos países africanos exportadores de produtos agrícolas. As terras aráveis são presentemente estimadas em 35 milhões de hectares cujo menos de um sexto são actualmente exploradas.

Há, portanto, um interesse económico, mas igualmente social, em colocar o desenvolvimento da agricultura a nível das prioridades nacionais e regozijámo-nos com a vontade manifestada pelas autoridades angolanas em apoiar as iniciativas e os investimentos nacionais e internacionais nos sectores agrícola e agro-industrial.

Com efeito, essa nova política deveria permitir não só melhorar substancialmente o problema da insegurança alimentar como fornecer também emprego a muitos jovens angolanos, contribuir ao desenvolvimento dos territórios e das províncias e por fim ajudar a substituir de forma significativa uma produção local às importações.

Muitas vezes percebida como uma actividade de subsistência pouco produtiva, a agricultura familiar fornece na realidade cerca de 80% dos alimentos do planeta.

Devido à sua forte representação e à sua resiliência, este tipo de agricultura foi amplamente apoiado pela França no período pós guerra. Este apoio manifestou-se pela promoção do modelo agrícola do tipo cooperativo.

A cooperação agrícola, ligada à uma política de valorização da qualidade e da origem dos produtos, contribuiu bastante para o fortalecimento da competitividade dos produtores familiares e à sustentabilidade dos sectores.

Com este modelo, produtores criam em conjunto uma empresa na qual ponham em comum recursos. Essa partilha ajuda-os a desenvolverem e aumentarem as suas respectivas actividades ficando ao mesmo tempo proprietários e gerentes independentes da sua própria exploração em pequena escala.

Ao comprometerem-se com as empresas cooperativas, as explorações familiares podem assim beneficiar de um acesso facilitado às sementes, aos fertilizantes e créditos, compartilhar meios de produção, compartilhar o investimento e a utilização de meios de armazenagem e de transformação a fim de promover os seus produtos, ou ainda garantir para si próprias uma remuneração e escoamentos aderindo à uma cooperativa de venda e de distribuição.

O modelo cooperativo pode declinar-se ao longo da cadeia de valor alimentar, da produção à distribuição do produto. Este liga assim as vantagens das grandes explorações (economias de escala) com pequenas explorações (emprego rural, valorização das complementaridades entre cultivos, uso moderado dos recursos, etc.).

Os estudos realizados na economia de desenvolvimento mostram que nessas configurações, as explorações familiares alcançam uma maior produtividade comparadas com a produtividade das maiores estruturas.

Este tipo de agricultura é igualmente favorável aos cultivos de maior valor acrescentado (cultivos biológicos, equitativo ou com denominação de origem controlada).

A vantagem em termos de criação de emprego permite igualmente de garantir o dinamismo económico das zonas rurais.

Hoje em dia, o modelo cooperativo ainda mantém-se como um padrão económico preponderante no panorama agrícola francês, reunindo mais dos três quartos das explorações agrícolas.

Além disso, durante a sua deslocação a França, o Presidente João Lourenço efectuou uma visita de campo à Cooperativa agrícola “ARTERRIS de Castelnaudary” (perto da cidade de Toulouse).

A agricultura familiar representa a força dessa cooperativa agrupando mais de 25000 agricultores membros por um volume de negócios total de 870 milhões de euros.

* Embaixador da França em Angola. Artigo escrito com  exclusividade para o Jornal Vanguarda e tem continuidade.   

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