“O ‘eduardismo’ foi longe demais e teria de ter vergonha para agora ressurgir”

Nas vésperas de Natal, o Vanguarda entrevistou Marcolino Moco, o ex-primeiro-ministro, ex-secretário executivo das CPLP, e actual administrador não-executivo da Sonangol. Foram várias os assuntos abordados numa longa conversa de quase duas horas. José Eduardo dos Santos e o 'eduardismo' foi o tema dominante, mas falámos de tudo, do poder, da oposição, das autarquias e da Constituição, e de mulheres bonitas.

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Texto: Ana de Sousa e Eugénio Guerreiro  Foto: Rodolfo Massala

O país sofreu, nos últimos 15 a 20 anos, de uma doença crónica chamada ‘eduardismo’, alguém que pôs o poder ao serviço de uma família esquecendo o país. Pode ser um exagero. Mas quando é explicado por Marcolino Moco faz sentido.

Durante a campanha eleitoral, em 2017, Ana Dias Lourenço tirou o cachecol do MPLA…

… o dela, e perguntou-me: ‘Posso oferecer-lhe alguma coisa?’, disse que sim, naturalmente, que era uma honra receber um presente da futura primeira-dama. Mas não sabia o que seria. Ela tirou o cachecol dela e envolveu-me com ele o meu pescoço.

De alguma forma esse gesto faz de si cúmplice, digamos assim, desta governação. Entretanto, estaríamos à espera que Ana Dias Lourenço estivesse a desempenhar um papel mais próximo de uma Hillary Clinton ou de uma Michelle Obama, mas, na nossa opinião, está a ter um papel muito discreto. E na sua opinião?

Devo dizer-lhe, em primeiro lugar, que aquele foi dos momentos mais difíceis da minha vida política. Fui tido como persona non grata pelo MPLA durante quase 20 anos, por causa de uma pessoa, que é o Presidente José Eduardo dos Santos. Ele sozinho não era o MPLA, mas era a pessoa cujos actos eu visava. Numa primeira fase, porque tinha uma visão para o alcançar a paz com a qual não concordava. José Eduardo e os seus seguidores defendiam que era preciso fazer a guerra para acabar com a guerra. O meu lema era outro: fazer a paz para estabelecer a paz. A partir de 2002 para cá, e depois da paz, conseguida, aparentemente, com o lema que defendiam, ganhando a guerra militar contra a UNITA, acabei por ter razão: José Eduardo ganhou a paz pela guerra e isso fez com que tomasse conta do país, se sentisse dono do país, que podia fazer tudo o que quisesse, o Savimbi já tinha morrido, e todos nós, que defendíamos outras teses, já tínhamos perdido qualquer legitimidade de termos opinião. E ele escolheu dois objectivos: enriquecer, a família pelo menos, e manter o poder.

Acredita que sem a morte de Savimbi teríamos o fim da guerra?

É difícil especular acerca de uma questão desse tipo. Temos que reflectir sobre o que aconteceu e não sobre hipóteses. O que aconteceu é que morreu Savimbi e a família dos Santos julgou que era o seu momento para fazer duas coisas: enriquecer e preservar o poder. E foi um desastre para o país. O desastre que temos vivido não foi tanto da baixa do preço do petróleo, é, sobretudo, desta filosofia de governação.

Recentemente, entrevistamos Lopo do Nascimento que nos disse que foi ingénuo em acreditar que pela via pacífica haveria paz?

É a opinião dele. Mas o que estou a sublinhar é que a paz se fez à custa da vitória militar, e que o vencedor se achou dono e senhor. Gostaria de ter visto uma paz negociada em termos mais inclusivos. As pessoas pensam que excluindo se resolvem os problemas, não é verdade, criam-se mais problemas.

Olhando a História e estas questões, ainda assim, acredita que havia outra via para o fim do conflito e à pulsão autocrática que se lhe seguiu.

Havia. A melhor forma de resolver os problemas é sempre a pacífica. Vejam a forma como os ingleses chegaram à democracia, muito mais pacífica do que a França, onde houve cortes de cabeça e um regime de terror. Em Angola, a nossa história começa com a descolonização – gostaria de abrir um parêntesis para distinguir dois conceitos: o de colonialismo, palavra que encerra os aspectos mais negativos, e de colonização, que nunca foi negativa, é um fenómeno em que o mais evoluído fornece mais-valias ao, supostamente, menos evoluído -, na transição sacrificou-se tudo à revolução. Não se preservou o sector branco que dominava a economia e a administração.

O que faz parte do processo revolucionário?

Exacto, mas, hoje, passados todos estes anos, temos o dever de fazer a crítica, porque vimos as consequências. Depois, os três movimentos de libertação e os seus líderes não foram capazes de criar uma plataforma de entendimento inclusiva, a visão que tinham passava por excluir os outros.

Sobre o processo de descolonização, esta forma de partir tudo e começar do zero…

… muito condicionados pela história, pelo tempo, pela Guerra Fria. Hoje, louvamos Nelson Mandela mas esquecemo-nos que Mandela é um fenómeno pós-queda do muro de Berlim, que analisou o fenómeno angolano ou moçambicano e por aí fora…

Sente que o processo de acumulação primitiva de capital, teorizado, resultou dessa vontade de africanização do poder e da criação de elites?

Não. O processo de acumulação proclamado pelo José Eduardo era um processo de acumulação familiar. Nem era de classe. Era da sua própria família. Aliás, já o disse que me admira que as pessoas falem dos generais, como se todos os generais participassem.

A família passou a um conceito mais alargado, convenhamos?

Convenhamos que não é o essencial, se falássemos em 50 pessoas era muito.

Voltando atrás, ao momento em que o cachecol envolveu o seu pescoço…

Que eu não esperava, nem suspirava por ele…

O que é que sentiu?

Senti que, afinal, a minha mensagem de 15, 20 anos valeu a pena. Aliás, a própria postura do João Lourenço reforça esta ideia, eu falava sozinho, mas que havia pessoas que me ouviam, e que, para sorte de Angola, estavam a gerir a sua preservação. Imaginem que acontecesse a todos, a João Lourenço e a outras pessoas, o que aconteceu comigo, ou num grau menor com Lopo do Nascimento, por exemplo? Seria um desastre. Se estiverem atentos percebem que falo em governação, nos seus aspectos mais concretos, onde tanta coisa está mal, do que falo, o grande problema deste país, sobretudo com o José Eduardo dos últimos tempos, é de filosofia, é de um modo de ver o poder.

Que também se explica pela forma africana de ver o poder?

Sim, também. No caso, o José Eduardo neutralizou as vozes, não direi discordantes, mas diferentes, e estou a falar da corrente encabeçada pelo Lopo do Nascimento, a que eu também pertenço. No congresso de 1998. Depois, atirou-se com todas as suas forças ao slogan ‘fazer a guerra para acabar com a guerra’, e conseguiu, em 2002. E a partir daí o partido tornou-se apenas uma ágora para aprovar e bater palmas.

Durante vinte anos, para lá do que é público, como é que foi a sua relação com José Eduardo dos Santos?

Nenhuma. Eu falava para ele através das redes sociais. Através da comunicação social tradicional não era possível, não tinha espaço. Mas acho que ele me lia nas redes sociais. Eu recebia ameaças por parte de estruturas de poder ligadas ao José Eduardo, e isso também não é segredo. Era essa a relação que nós tínhamos.

Nunca se intimidou?

(pausa) Intimidar? Sim, é da natureza humana. Mas por vezes sentimos portadores de uma missão que faz com que ultrapassemos o medo.

Quando é que percebeu que com João Lourenço o caminho seria outro?

Quando percebi que João Lourenço iria suceder a José Eduardo tive logo a certeza de que nada seria como antes.

Não perca a entrevista na íntegra na próxima edição do Vanguarda.

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