“chegará uma fase que para ver uma obra angolana teremos que ir ao exterior”

O artista que já expôs no Museu do Louvre em Paris e em 10 anos de carreira comemorados recentemente ganhou dezoito prémios de forma independente ambiciona chegar ao Leão de Ouro. Em entrevista ao Vanguarda, “soltou o verbo” e mostrou o seu descontentamento pela falta de apoio do Ministério da Cultura perante a sua classe.

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Por: Jucíria Rodrigues 

Primeiramente fale-nos de si…

Armando Scoot nasceu em 1990, sempre vivi em Angola desde a minha infância e sou o último de sete irmãos.

Como é que a pintura entra para a sua vida?

Desde muito pequeno que me revelei um artista, lembro-me que a primeira manifestação artística foi ter pedido ao meu pai para que fosse eu a pintar os portões de casa. O meu progenitor sempre esteve ligado à arquitectura e cresci sempre neste meio ligado a construção. E porque sempre fui um bom aluno de Geometria repeti o ensino médio que estava a ser concluído no curso de ciências sociais para estudar artes no DINFA na altura Direcção Nacional de Formação Artística e eu acredito que foi uma das minhas melhores escolhas. Estudei e terminei com êxitos, formar em Belas artes em Portugal a partir de 2012 frequentei com êxitos a Universidade Lusófona de Lisboa onde me formei em belas artes.

Como surge o pseudónimo “Scoot”?

Depois de sair do colégio Patrícia Rossana foi difícil me enturmar, porque sempre fui um rapaz muito tímido, hoje claramente falo um pouco mais dada a minha profissão, a moda, as artes tive que ter essa ligação de relações humanas. Mas na altura era muito quieto, e fui baptizado com o nome de Scoot porque no primeiro ano em que eu entrei não falava com ninguém a única forma de comunicação que eu tinha com os meus colegas era o desenho, eu chegava desenhava fazia as tarefas pegava a bata a minha mochila e ia embora… Certo dia tramaram-me, fizeram a caricatura de um professor e escreveram Armando Pombal como se fosse eu o autor, eu tive a pior das reacções e ofendi. E porque era necessário ter um nome artístico e na altura passava o filme X-Man onde o mais calmo tinha olhos de fogo e quando lutava supostamente era o mais nervoso a partir dessa altura passei a ser o Armando Scoot.

O que retracta a exposição Ocean´s em alusão aos seus dez anos de carreira?

Inspiro-me muito em oceanos pois lembra-me das vezes que em Portugal deslocava-me ao Porto e passeava pelo Rio douro só para sentir o fresco da areia e o quente da água nos meus pés, então essa exposição homenageia também a Deus o criador por ter criado esse elemento para mim tão real que ao mesmo tempo é surreal.

Como é estar em contacto com artistas renomados mundialmente?

Embora tenha um diploma em belas artes considero que a minha grande formação é o contacto com outros artistas, Outubro estive em Paris em estive em Paris quando recebi a medalha de bronze conheci um leque de artistas vindo de outras partes do mundo hoje olho para a minha carreira e me revejo nestes artistas. Completei 10 anos de carreira e acho que sou um adolescente ainda nas artes embora já com algum percurso, eu conheci pessoas que têm 50 anos de arte e a interacção que tenho com o António Ole é o meu maior exemplo de respeito e admiração, portanto é gratificante.

Durante os seus anos de arte participou em várias exposições, quais as que mais lhe marcaram?

Eu acho que cada exposição é uma exposição tive a graça de já andar em muitos países tive em Espanha, estou a expor há três anos, em Paris expus no Louvre numa altura em eu afirmava que é, “é impossível morrer sem expor no Louvre”, no Dubai em 2017 eu acho que cada exposição tem um toque diferente. Em Angola tenho estado a visitar várias exposições, não participo em muitas exposições colectivas em Angola porque é uma dinâmica diferente, imagina em um mês em Portugal eu posso expor 4, 5 vezes e eu exponho em 3 meses numa exposição colectiva em Angola, na Europa é relativamente diferente, mas acho cada experiência é uma experiência.

Nas suas intervenções afirma que o ministério da cultura não o apoia…

Se me perguntar pelo Ministério da Cultura vou lhe responder que não conheço, desconheço não sei se existe cá no país. Chegamos a uma fase da cultura estável no nosso país, mas estável em termos musicais, o que é bom, mas é preciso olhar para as artes plásticas de uma forma diferente, afirmo sem medo de errar que estas mesmas pessoas conhecem Picasso e Van Gogh, mas não olham da mesma forma para os seus artistas e não lhes dão o devido mérito. Eu não estou a dizer que têm que me dar todos os prémios e felizmente os meus prémios 85% dos prémios que eu tenho foram lá fora, acho que temos que ser reais e sinceros connosco mesmo, vamos chegar a uma fase que para ver uma obra de um determinado artista angolano teremos que apanhar um avião e ir ao exterior.

Como chegou tão longe em tão pouco tempo?

Porque luto todos os dias, fiz essa exposição por conta própria, já escrevi diversas cartas para o ministério e nunca fui atendido. A Unap felizmente apoiou porque eu faço parte da União Nacional dos Artistas Plásticos e da Brigada jovem dos Artistas plásticos. Creio que não se deve apoiar apenas aqueles que se formaram todos artistas merecem igualmente reconhecimento. Caminho por conta própria e vivo do meu trabalho, as artes deram-me e dão diariamente a credibilidade e o meu sustento. Por isso acho que o que o nosso ministério que eu não conheço e que se existe deve dar algum apoio aos artistas e terminar com as ilhas.

Durante este percurso qual foi a maior dificuldade que viveu?

O primeiro ano que cheguei a Portugal não foi fácil, especificamente por questões raciais… Tanto é que fiz em 2017 uma exposição com o tema foi “Cores de Preto” porque quis que as pessoas olhassem para o racismo com uma coisa verídica e frequente. Num outro país a minha participação numa exposição já foi banida por ser negro, até na moda deixei de participar em vários desfiles por ser negro… Deus fez cada um de nós de forma diferente e esta exposição veio para abrir os olhos de muitas pessoas que passam por racismo e fecham-se e copas e outras que usam este testemunho para dar a volta a situação, como eu fiz.

Deu a volta por cima…

Já ouvi muita gente dizer que “só o Armando é que ganha prémios, só ele é que fala na televisão”, mas o que as pessoas não sabem que eu cheguei até aqui por mérito próprio e já dormi na porta da embaixada de Angola em Portugal, e não tenho medo nem receio de falar disso aliás orgulho-me por isso… Em 2012 quando cheguei a Portugal estava no meu primeiro ano na universidade de Belas artes eu fui para a embaixada e exigi que fosse recebido pelo embaixador e é por esta ousadia por essa não desistência que cheguei onde cheguei, penso que os jovens artistas devem ser mais ousados mais atrevidos no bom sentido.

O que mais desejava artisticamente?

Continuar a seguir os passos de outros artistas veteranos e para chegar longe, costumo dizer que nunca vou desistir enquanto não levantar o meu Leão de Ouro da bienal de Veneza é o que mais quero na minha vida. Quero ser reconhecido pelas maiores galerias de África, porque já entrei para o mercado europeu, e as galerias conhecem o meu trabalho e até tenho obras no museu Cristiano Ronaldo. Mas acima de tudo quero inspirar a juventude com a minha experiência.

É tido no seio da juventude angolana como um exemplo a seguir graças a sua trajectória inspiradora. Tem sentido esta responsabilidade no seu dia-a-dia?

Estou a pensar em escrever uma biografia justamente por isso, existem alguns jovens se revêm no Armando Scoot e tudo que eu não tive quando cresci quero dar aos mais jovens da que interagem comigo. Hoje faço palestras por vários colégios em Angola, em Portugal já fiz palestras motivacionais de em várias empresas e mais gratificante que isto, é ter alunos portugueses da universidade católica, da universidade lusófona a elaborar teses de fim de curso da vida e obra de Armando Scoot e isso tem sido cada vez mais regozijante para mim eu agradeço a Deus por também estar a inspirar jovens.

Para quando o lançamento da tão esperada biografia?

Para breve, embora não tenha ainda um título específico eu quero muito poder denominar “Nunca fui eu sempre foi Deus”. Mas antes disto, farei o lançamento da minha primeira obra literária, um romance a ser lançado ainda este mês em Portugal intitulado “foi Deus que me apresentou você J.O”.

Porquê não priorizar Angola, não seria altura de deixar o ceticismo de lado…?

A minha experiência mostra que dá-se mais mérito e maior reconhecimento quando vens lá de cima, vou lançar em Portugal primeiro por várias razões:  a editora é portuguesa porque foi muito melhor recebido aquando do processo de escrita do livro em Portugal do que em Angola.

Eu andei a ralar anos e anos cá em Angola a minha primeira exposição em 2012 na altura escrevi “N” cartas para “N” galerias que eu não vou citar os nomes que também descredibilizaram o meu trabalho. Eu andava com o diploma e disseram-me não a mesma, na altura tinha vencido o prémio da embaixada da Itália, e foi o embaixador da Itália uma pessoa que está a vir da Itália é que disse “o menino tem talento tu não pode ficar assim, está a viver em Portugal tem que fazer exposição em Angola e ligou para o pessoal do hotel alvalade onde eu fiz a minha primeira exposição, tu vais expor em angola e eu vou fazer a promoção para ti”. Imagina se eu não tivesse os amigos e as pessoas que eu conheci se não fosse o embaixador talvez só agora estaria a fazer a minha primeira exposição, então eu acho que devemos olhar bem aquilo que queremos para o nosso país em termos artísticos porque só valorizamos a classe depois deles terem reconhecimento internacional.

Onde é que se vê daqui há cinco anos?

Acredito que cinco anos é muito tempo para ganhar o prémio Leão de Ouro mas se neste tempo não acontecer Deus sabe quando irei receber. Quero continuar a viajar e dar a conhecer o meu trabalho, para que as minhas obras sejam conhecidas a nível mundial, daqui a cinco anos quero que as pessoas olhem para mim como um Dalí, quero ter a ousadia do Dalí. Quero chegar ao nível que as pessoas leiam sobre a minha obra e queiram conhecer Angola por essa razão.

Prémios de carreira

1º Prémio Desenho e pintura 2001, (pelo Programa televisivoCarrossel, 1º Lugar ).

2º Prémio Desenho e Pintura 2011 (Embaixada da Itália em Angola, 1ºLugar).

3º Prémio  Mister Talento 2012 (pelo Comité Mister Angola 2012).

4º Prémio  Mister Popularidade 2012, (pelo Comité Mister Angola 2012) .

5º Prémio de Arquitetura 2013 (pela Universidade Lusófona de

Lisboa/Portugal  2013, 1º Lugar).

6º Prémio de Melhor Modelo do (Black Fahion Weak Lisboa 2014).

7º Prémio de Arquitetura 2014 (pela Universidade Lusófona de Lisboa 2014, 2º Lugar ).

8º Prémio Menção Honrosa  (1º Concurso de Pintura ao Ar Llivre

Pelouro da Cultura da junta de Fraguesia da Miséricordia em Lisboa/Portugal 2014)

9º Prémio (Concurso de Pintura pela COVIRAN 2105, 3º Lugar).

10º Prémio de Participação, (ao Concurso de artes “250 anos do Poeta Manuel Bocage”)

11ª Prémio 6th Edição do Salão Internacional de Arte em pequeno formato 20×20 cm (na categoria “Menção honrosa”)

12º Prémio Jovens da Banda (Categotia de Pintura 1º Lugar) 2016.

13º Prémio (FJAP- Fórum da Juventude Angolana em Portugal) 2017

14º Prémio Pincel de Ouro (Pela Exposição de Arte Castelo Branco/Portugal) 2017

15º Prémio de Reconhecimento internacional (pela Index – Dubai) 2017

16º Prémio Palanca Negra Gigante, na Gala Palanca Negra Gigante, como:

(Melhor Artista Plástico da Nova Geração) em Angola 2018

17• Prémio Medalha de Bronze (no Corroussel do Louvre em Paris/ França) 2018

18• Prémio Criatividade (na Bienal de Arte 20X20 cm Portugal) 2018.
 

 

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