Filipe Mukenga “Existe um divórcio entre a nova e a velha geração de músicos”

Incontornável, na arte da composição musical e intemporal no que toca ao legado cultural, o “Gurú” da música nacional reinventou-se na voz e violão para estrear hoje no palco do Instituto Camões o projecto “Canções de Mestres”, um tributo ao 443ª anos da cidade de Luanda.

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Por Jucíria Rodrigues

O que podemos esperar deste tributo que vai fazer à cidade de Luanda no Instituto português Camões?

Vou apresentar neste concerto músicas inéditas e algumas que as pessoas já conhecem por exemplo vou cantar “Minha terra” que as pessoas baptizaram com o título “filho de Cabinda”, algumas pessoas me interpelam na rua a querer saber se eu sou de Cabinda, não eu não sou de Cabinda eu nasci mesmo aqui em Luanda na maternidade velha que é a maternidade Lucrécia Paim foi onde nasci em 1949 muitos anos atrás. Na altura os meus pais viviam aí junto ao ministério da reinserção social, o campo de aviação era onde está o partido MPLA na altura os comboios atravessavam a avenida brasil era do lado do Marçal onde os meus pais viviam, era isso que eu queria dizer vou cantar algumas conhecidas e outras inéditas que não posso-me furtar de as cantar, “Umbi umbi” que é a minha canção mais internacional, Ndilokewa uma canção de amor, que já foi lançada, realmente nunca esperei que ela fizesse tanto sucesso assim.

É um concerto que está a ser organizado pela Semba Jazz digamos que se calhar o embrião de uma futura agencia de espectáculos de uma pessoa que é o Vladimir Gonga, é uma iniciativa dele um programa que ele decidiu começar com o padrinho dele, outros músicos vão passar por este programa de músicas apresentadas apenas com voz e violão e com apoio do centro cultural português afecto a embaixada portuguesa, o que eu espero é que ele tenha sucesso neste programa que ele decidiu levar a cabo e depois estamos no inicio do ano e acho que começa bem.

E o que significa para si ser o anfitrião do projecto “Canção dos mestres”?

Sei que ele me trata por mestre agora se os outros músicos que vão passar por este programa são mestres eu não sei, o que eu espero é que as pessoas apareçam e que o auditório onde vou me apresentar esteja completamente cheio, eu costumo dizer na brincadeira que me apresento de século a século então as pessoas devem procurar não perder essa oportunidade, e nesta primeira experiência, porque nunca me apresentei neste formato… Como sabe comecei na década de 60 passei por grupos de música Pop música reggae,  numa altura em que os Beatles faziam sucesso em todo o mundo e como resultado desse sucesso foram surgindo bandas aqui e eu passei por três: Os Brucutus depois pelos Indómitos e Polo 11, e depois decidi dar uma outra orientação a minha carreira, deixei de cantar os êxitos que vinham lá de fora para começar a trabalhar partindo da nossa música isso aconteceu logo depois do cumprimento do serviço militar, cumpri serviço militar no exército português  e formei o Duo Missosso que fez bastante sucesso em meados dos anos 70 até um pouco depois da nossa independência, o que aconteceu é que o meu parceiro José Agostinho faleceu, eis a razão que eu hoje sigo a minha carreira a solo.

Em 55 anos de carreira completados no ano passado, como é que se descreve enquanto artista?

Eu pretendo continuar a ser músico quero continuar a compor e a fazer chegar as pessoas uma música que as enriqueça culturalmente, para mim a música não deve ter unicamente o propósito de colocar as pessoas a dançar nas discotecas nas festas, a música quanto a mim deve ter outros tipos de preocupações que é aquela que eu produzo música com mensagem que enriqueça culturalmente a pessoa, mas também rica no ponto de vista do discurso melódico, rica no que diz respeito às harmonias e com um som que vem dos acordes que normalmente são utilizados no Jazz este é o meu desejo. Infelizmente não é toda gente no nosso país que tem o ouvido formatado para apreciar essa música, por isso mesmo é que eu encontro grandes dificuldades de manter um contacto com o público mais frequente.

Continua acaracterizar a sua música como NMA (Nova Música de Angola)?

Exactamente, tenho sido contactado por jovens que pretendem saber o que é que eu faço em termos musicais eu costumo responder: “eu faço música”. Não satisfeitos com essa resposta procuram por um rótulo para muita gente o rótulo é muito importante, logo criei esse rótulo NMA justamente para a música caracterizada com uma grande riqueza nas harmonias, discurso melódicos mas também rica na mensagem, da mesma forma que existe a MPB (música popular brasileira) e aqui em Angola a NMA.

Como é que recorda de Angola num panorama mais cultural na época em que começou a sua carreira artística?

O que me recordo é que Angola e sobre tudo Luanda sempre foi uma cidade bonita e com um movimento cultural muito grande, havia música em todo o lado, a noite em Luanda, só posso falar de Luanda porque foi aqui onde sempre tive enraizado a noite luandense era uma coisa fantástica com as boates que agora são as discotecas eu cantei em duas delas, então o que eu me lembro é das noites, dos centros recreativos onde eu também cantei muitas vezes, das passagens de ano onde eu também cantei, naquela altura nós ganhávamos dinheiro cantando nas boates, festas, passagens de ano sobre tudo nas passagens de ano onde nós músicos conseguimos cachês mais gordos digamos assim.

Haverá analogia possível com os tempos da actualidade?

Não tem comparação nenhuma, são tempos completamente diferentes, há o primeiro tempo que foi marcado pela colonização nós fomos colonizados pelos portugueses e hoje somos independentes, temos muitos problemas para resolver, no ponto de vista cultural precisamos de muita coisa ainda, salas de espectáculos, estúdios de gravação espalhados pelo país inteiro, andam a obrigar os músicos a juntar-se aqui em Luanda, onde vocês têm o maior número de meios, estúdios e outras condições que não se encontra nas regiões de outras províncias. Precisamos de técnicos, engenheiros de som que têm conhecimento de acústica que domina a arte de mistura da masterização, precisamos de uma fábrica de CD´s, todo o processo de produção não é possível fazer aqui no nosso país os discos temos que mandar fazer lá fora, precisamos de músico na área dos metais das cordas temos a Orquestra Capossoca ainda têm muito caminho a percorrer. Eu gravo no exterior e não é por questão de vaidade mas porque a minha música já carece de outro tratamento e aqui no país não encontro músicos como me referi na área das cordas na área dos metais precisamos de arranjadores de maestros, então não se pode fazer analogias pois são tempos totalmente diferentes.

O Ministério da Cultura tem recebido duras críticas no que toca ao apoio da classe artística e há vozes que se levantam em defesa da música. É possível dizer que realmente tem tido este apoio?  

Não quero fazer declarações, o que eu penso é que o ministério da cultura é um órgão reitor da política do estado é um ministério também com problemas nas verbas, as verbas são muito reduzidas, dizem que a cultura como os brasileiros dizem é o carro chefe que as carruagens e toda vida do país, continua a não ter no nosso país o peso que deveria ter no nosso país porque cultura é a identidade de um povo o que eu posso dizer é isto.

E quanto aos músicos que estão presos no imediatismo em busca de fama?

Sabe-se que os jovens querem atingir o estrelato rapidamente, na minha opinião para os jovens não importa o caminho não importam os meios o que importa é chegar la acima, estou com 55 anos de carreira e não cheguei lá acima e os jovens querem em 1, 2 ou 3 anos querem obter o que muitos conseguiram com muito trabalho e trajectória muito longa e do ponto de vista temático utilizando sempre o amor mas cantando sem beleza. O amor é cantado muitas vezes utilizando obscenidades, é cantado muitas vezes sem poesia, as pessoas que escrevem não utilizam uma linguagem cuidada, não utilizam figuras de estilo, metáforas enfim e dá a impressão que já não há mais assuntos para serem abordados na música.

No ponto de vista temático há muitas coisas que podemos falar, por exemplo há a questão do ambiente como costumo falar “está muito caixa alta”, nós estamos a caminhar para um beco que depois não vamos ter saída, com a poluição destruição da camada de ozono, com a poluição dos rios, mares e do ar…

Certa vez disse em entrevista que existe distanciamento entre a velha e a nova geração de músicos, ainda se verifica nos dias de hoje ou já foi ultrapassado?

Entre nós mais velhos e os jovens não tem havido encontros que são muito importantes, nós temos a nossa experiência temos alguma coisa para dizer aos jovens, existe um divórcio entre nós, mas não vamos ser nós os mais velhos a procurar os mais novos, por uma questão de respeito os jovens é que têm que chegar e saber como é que foi a nossa história qual é que foram as dificuldades que tivemos, temos alguma coisa a dizer aos mais novos mas há falta de interesse para a passagem de testemunho. Eu não sei mais quanto tempo vou durar e estava muito preocupado com isso, por isso foi lançado um livro auto biográfico que funcionará como um guia.

Será a falta de intercâmbio uma das “bases” para a fraca composição das músicas actuais?

Nós não podemos ter a legalidade de querer fazer tudo, existe esse problema dos músicos no nosso país a maior parte deles querem fazer tudo, querem ser compositores a fazer criação das melodias  das letras querem fazer tudo. Costuma-se dizer que uma cabeça pensa bem mas duas pensam melhor ainda, e a música começa de um processo colectivo cada vez mais, daí os duetos agora que estão cada vez mais na moda, os músicos não podem ter essa ideia de querer fazer tudo, penso que devemos nos juntar a outros músicos a outras sensibilidades aí a música vai resultar melhor, não devemos querer ser presunçosos, egoístas, devemos partilhar com os outros. Se não nasci com jeito para escrever devemos procurar quem nasceu com dom da escrita, do ponto de vista da criação das melodias se acho que não sou muito bom nisso vou procurar alguém que tem essa capacidade, daí o grande facto de eu estar ligado a uma pessoa que  chama-se Filipe Zau muito tempo de convivência muito tempo de amizade muito tempo de trabalho musical e costumo dizer que somos irmãos por afectividade e grande parte das canções que vocês conhecem não aparece lá só Filipe Mukenga, há algumas canções que vem o autor da letra da música, o número é maior que aparece Filipe Mukenga e por baixo Filipe Zau isso para dar força a ideia que devemos trabalhar em conjunto e não com esse sentimento de egoísmo de não partilhar com os outros.

O resgate dos nossos valores culturais também depende disto…

A música pode dar um contributo muito importante e sensibilizar as pessoas para educação para o respeito aos mais velhos, enfim valores que estão perdidos e ao longo da nossa história a música tem tido um papel muito importante, na luta de libertação, na segunda guerra de libertação tive o privilégio de poder dar o meu contributo. Também estávamos em guerra era necessário mobilizar o povo para impedir as forças que estavam a querer invadir o nosso país a querer tomar o poder pela força, a música teve um papel muito importante de tal maneira que nós que estávamos organizados na JMPLA na sua secção de música, nas nossas andanças pelo país para angariar  fundos para o MPLA e mobilizando o povo, no nosso caminho tivemos sorte de não ter cruzado as forças que estavam aqui a tentar tomar o poder.

 

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