José Silva Pinto: “Nesse momento acho que é mais rentável ser kudurista do que ser fotógrafo em Angola “

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Por Jucíria Rodrigues

Porquê Tonspi?
Tonspi é o meu sobrenome é Pinto ao contrário com S para disfarçar.

Em que consiste esta “Contagem Decrescente”?
O conceito desta exposição foi pensado pela Dra. Noémia Prado é uma jornalista pintora portuguesa que viveu aqui em Angola por três anos. Quando fui convidado para fazer esta exposição pensei que em fazer uma coisa diferente do que habitualmente se faz que é emoldurar a quadros ou fotografias e pô-las na parede… Falei com ela e ela disponibilizou-se de imediato, pensamos nesta ideia que no fundo é uma reflexão sobre a vida, esta exposição convida-nos todos a reflectir um bocado sobre como é que nós vivemos, nós vivemos em bolhas em caixas fechadas com agenda que as vezes não tem nada a ver com aquilo que nós precisamos e no fundo a questão é, se tudo começasse ao contrário? Se nós invés de nascer e vivêssemos, nós morrêssemos para nascer? A ideia do conceito é essa uma contagem decrescente invés de envelhecermos saímos de velhos para nova essa é a ideia.

Prefere contar histórias a preto e branco?
Não é verdade eu fotógrafo tudo a cores mas o preto e branco também têm cor basta nós querermos olhar e ver as cores que lá estão ou que não estão lá então consegue recriar. Nós sabemos que o céu é azul ou cinzento preto e branco ou é branco ou cinzento ou muito escuro nosso cérebro é capaz de corrigir essas diferenças, a maior parte da minha fotografia que eu exponho é preta e branco porque eu gosto de preto e branco porque produz uma certa nostalgia uma certa dramaticidade as fotografias e eu gosto não é nenhuma mania nem nenhuma teimosia nem nenhuma obsessão mais eu gosto de preto e branco.

Quantas fotografias estarão expostas?
No filme são mais de 150 depois tem os separadores que também são vídeos e tem os textos da Dra. Noémia Prado em fotografias aqui na sala de cima temos por aí umas 50 ou 48 são muitas eu não faço muitas exposições não chego a fazer uma por ano portanto é uma oportunidade de mostrar aquilo que eu tenho feito.

Todas elas resultantes das suas viagens pelo interior de Angola?
Não necessariamente, são todas feitas em Angola não há nenhuma fotografia exposta que foi feita fora de Angola, umas são porque eu viajei outras são porque eu saí tinha a camera na mão e fotografei. Fotografo quando me apetece quando vejo alguma coisa que me interessa e normalmente ando sempre com uma camera, muitas dessas fotografias não foram pensadas não foram planeadas só aconteceram como a maior parte da minha fotografia saio sem destino sem rota vou passando pelas pessoas pelos sítios e quando me interessa eu fotografo.

De regresso ao passado, como é que a fotografia  “cruza” o seu caminho?
A fotografia entrou na minha vida muito cedo, porque eu roubava a camera ao meu pai e fotografava com os rolos dele. Depois daí, aos 18 nos fui trabalhar juntei dinheiro comprei uma camera comecei a fotografar… Mas profissionalmente só a partir de 2004, 2003 comecei a trabalhar com fotografia e vivo só disto.

“Roubava a camera do seu pai” significa que teve alguma influência familiar?
Não, o meu pai pintava não fotografava tínhamos aquelas cameras que todas famílias têm para tirar fotografias dos casamentos dos baptizados dos aniversários das pessoas das férias e o meu pai tinha uma camera de rolo.

Vive exclusivamente da fotografia?
Sim, vivo exclusivamente da fotografia tenho uma pequena empresa, sou sócio de uma produtora de áudio visuais que fazemos vídeos fotografias áudio e é disso que eu vivo. Faço fotografia comercial para pagar a minha fotografia de autor aqui em Angola por falta de mercado nós temos o ministério da cultura, eu não sei se temos um ministério da cultura, temos uma coisa parecida com o ministério da cultura ou lá ninguém percebe nada de fotografia e acha que fotografia não é uma arte e não há investimento nenhum não há espaço para fotografia não há.

Até que ponto é rentável?
Veja uma coisa Luanda tem 12 milhões de habitantes pelo censo e em Luanda quantas exposições de fotografias temos nesse momento? Nenhuma, quantas tem por ano? Uma duas três conta-se nos dedos, quantos espectáculos de kuduro é que tem por ano? Milhares, portanto nesse momento acho que é mais rentável ser kudurista do que fotógrafo. A fotografia como arte não tem mercado, ninguém faz nada para que haja mercado para que haja condições para haver fotografia séria. Uma coisa é fotografar e pôr no Facebook outra coisa é fotografar para as pessoas apreciarem, portanto tenho que fazer fotografia comercial para pagar as minhas despesas e também não espero patrocínio, nunca pedi nem escrevi cartas a ninguém, e se calhar é o grande problema da arte em Angola é que as pessoas fazem os projectos a contar com o dinheiro dos outros e depois têm que agradar a gregos e troianos.

A criação de uma associação de fotógrafos ajudaria a contornar tal situação?
Isso é um acto solitário não tem nada a ver com associações será grupos de fotografias e daí as pessoas vão expor as fotografias a onde? No Facebook, quantas salas e quantas galerias tem em Luanda quantos espaços de exposição é que há em Luanda para as pessoas poderem expor que importância é que as pessoas dão a fotografia em Angola, zero. As pessoas lembram-se das fotografias uns dias em casa nos dias que têm batizado ou que fazem aniversário o resto ninguém liga não tem divulgação não tem apoio, o ministério esqueceu-se que a fotografia também é uma arte e então promove o kuduro.

Em Angola, quais os nomes que apontaria como referência na fotografia?
Conheço e sigo três fotógrafos em Angola: André Silva Pinto que é meu filho e é muito bom não me parece bem dizer mas é, o kostadin luchansky que é meu amigo e me interessei recentemente pelo trabalho de um jovem que é o João Carlos Monteiro que eu não conhecia e descobri por acaso no Facebook e que sigo o trabalho dele com interesse e gosto aquilo que ele faz. Gosto do trabalho que o kostadin faz ele é um fotografo honesto muito bom profissionalmente e gosto André Pinto que é muito bom. No momento não conheço e não vejo exposições, as plataformas onde as pessoas podem expor é o Facebook e o Instagram e eu não ando lá muito, até vejo mas não perco muito tempo lá.

O que é necessário para ser um bom fotógrafo?
Não há bons nem maus fotógrafos há fotógrafos competentes e incompetentes. Em Angola não há nenhuma escola, não se faz escola eu acho que há poucas escolas do que quer que seja, a fotografia é uma coisa que se aprende a fazer e não é preciso ir a escola, claro que a escola ajuda mas não é absolutamente necessário eu não fiz escola de fotografia nenhuma aprendi fotografia sozinho. Portanto quem quer aprender fotografia tem o maior remédio é pegar numa camera se a tiver ver tutoriais e praticar até atingir um patamar de qualidade que permita expor, vender é difícil como eu disse não há mercado de fotografia em Angola.

E para fazer uma boa fotografia?
Coração e olhos e uma camera mais nada, mas também se pode fotografar com os olhos.

Aprova o uso de programas de edição?
Tenho a minha opinião sobre este assunto e já fui acusado de extremismo. Uma fotografia quando é bem tirada é preciso mexer o mínimo, o que está a acontecer neste momento é que as pessoas fotografam mais com o computador do que com camera como não sabem fotografar ou não lhes apetece fazer como deve ser fazem de qualquer maneira e depois inventam umas coisas no Photoshop para dizer que aquilo é assim.

Sendo um profissional que não expõe com frequência, quais as expectativas?
Gostava que as pessoas viessem que trouxessem muito dinheiro e comprassem muitas fotografias.

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