Toty Sa´Med: “Como artista, o importante é ser original”

Estivemos à conversa com o músico e instrumentista que recentemente realizou dois concertos em comemoração ao segundo aniversário do álbum “Ingombota”. O artista que partilhou o palco com Nayela Simões, proporcionou “viagens” ao passado com recurso ao cancioneiro nacional e apresentou novos temas que compôs e desenvolveu durante estes dois anos.

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Por Jucíria Rodrigues

As músicas inéditas foram um pronuncio do novo álbum?
É cedo para falar de novo álbum, mas de certeza, abre uma nova fase de composições novas, desafios novos e palcos novos.

Faz muito recurso ao cancioneiro nacional nos seus trabalhos. Doravante teremos cunho mais pessoal nas suas obras?
O novo desafio será este. Colocar o público em contacto com as minhas criações. Tenho muitas coisas para mostrar e decerto que o público se vai surpreender.

Nas suas performances há um momento bastante inovador que é quando começa a produzir efeitos sonoros em palco. Como surge esta ideia?
Isto não é novo no Showbiz mundial. Existem vários artistas que usam destas técnicas. Apenas adapto aos sons de Angola e às minhas canções. A ideia surge da necessidade de tocar sozinho e dar um bom concerto ao público.

E como é desenvencilhar-se entre loops, dikanza e a própria voz durante a actuação?
Com o tempo, torna-se mais fácil. Levei algum tempo a adaptar-me e hoje domino o meu setup. Requer concentração e domínio do material.

Já consegue definir a sua música?
Não consigo definir algo que ainda não encontrei por definitivo. Estou à procura do som e sinto que a procura nunca vai terminar.

Sendo uma pessoa que não fala Kimbundu como tem sido o processo de composição das suas músicas, sendo que prefere escreve-las em kimbundu?
Tenho alguns parceiros e parceiras de composição. Reúno-me com estes e achamos as letras mais adequadas para cantar, sendo que as componho em português, excepto algumas frases que conheço.

Associada à música vanguardista, os dialectos nacionais foram as formas que encontrou para fazer um resgate às nossas raízes?
Como artista, o importante é ser original. E esta originalidade para nós africanos é natural. Então, vi nas línguas nacionais uma plataforma para desenvolver a minha comunicação musical. É a matriz, portanto, devo abraçá-la e compreendê-la.

O que potencia a sua criatividade?
O foco. Quando estou focado e confiante, sou muito mais criativo. De resto, qualquer coisa serve como base criativa.

Existe algum artista que considera “guia de consulta obrigatória”?
Filipe Mukenga, Djavan, Ruy e André Mingas são as minhas bases, porém, hoje conheço muitos artistas pelo mundo que me vão inspirando e ensinando novas formas de pensar música.

Recentemente fez uma actuação no dia em que perdeu a sua avô. Como descreve esta experiência? 
Foi difícil por um lado. Estava destruído emocionalmente. A minha família tinha perdido uma guerra. Por outro, encarando a relação com o público como um compromisso, lembrei-me de um valor semelhante aos que a minha avó me passara. A honra ao compromisso e estava em palco fazendo o que mais gosto no dia em que perdi uma das pessoas mais importantes da minha vida.

Está quase sempre acompanhado da Nayela Simões, já os podemos considerar uma dupla?
Somos grandes parceiros. E eu na qualidade de seu fã, não perco uma oportunidade de colocá-la a cantar comigo. Somos artistas independentes e ela integra agora uma banda chama Ukãi que só tem mulheres. Vamos fazer coisas juntos aproveitando o gosto musical que partilhamos.

Quais os melhores ensinamentos que guarda do King’s Clube?
Do King’s guardo todas as lições de vida e de música. Foi onde me fiz músico e adulto. Guardo também a importância da paciência e do trabalho árduo. O mérito há-de prevalecer.

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