O esvaziamento cultural da juventude africana

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Por Jerónimo Cahinga

Vice-reitor da Universidade Católica de Angola

A nível cultural, passa-se algo parecido. Sabemos, bem, que uma das definições de cultura é que ela é a forma espiritual de uma sociedade, isto é, tudo o que a une interiormente e a distingue das outras sociedades exteriormente (como faz a cultura brasileira para os brasileiros, a francesa para os franceses, a chinesa para os chineses, etc.). O que se está a passar em África, desde os entusiásticos anos de independência, é o total desfasamento da identidade cultural dos povos africanos nela sedeada. Com efeito, uma vez que o propalado progresso e a perseguida modernização só se encontram, na sua forma mais atractiva, no Ocidente, o seu acesso implica, necessariamente, a importação maciça de cenários e de soluções não africanos e a negação do seu passado, da sua história e das suas tradições. Por outras palavras,o africano assumiu, com espantosa resignação, a teoria de que a África só conseguiria prosperar se se rejeitasse a si própria.

Fala-se de certas realizações culturais e da falada introdução de línguas ditas nacionais nas escolas do ensino de base. Contudo, o comportamento cultural da alta e média sociedade que são, afinal, o modelo consumístico das massas que vivem enfermadas por uma mórbida ansiedade de se aproximar, no mínimo, do escalão de vida delas, é francamente contrário àquilo que deveria ser o agir de acordo com a cultura africana. Caminha-se velozmente para uma degradação e uma auto-alienação cultural.

Esses aspectos revelam igualmente uma profunda crise moral, que perturba os critérios do verdadeiro e do falso, do essencial e do secundário, do útil e do inútil, do bem e do mal, com tudo o que isto implica de falhanço social, isto é, do desaparecimento de toda a regra de equidade e de todo o sentido de interesse colectivo, o qual conduz directamente à falha política.

Ora, quando os habitantes de um país são crentes e este país é ensombrado pelo empobrecimento, pela insegurança, imoralidade, injustiça, é preciso concluir que a falha é também espiritual.

Uma das atitudes que caracterizou o ministério público de Jesus foi a sua prontidão em perdoar os pecados (Mc 2,1-11). Ela provoca simultaneamente a admiração do povo e a ira dos responsáveis religiosos (v.12)

A recusa de perdoar o pecado (ou o domínio do dispositivo do perdão) significa, pois, dispor de um grande poder social. Por isso, a atitude de Jesus foi uma grande ameaça às formas vigentes desse tipo de controlo social. E é considerada como uma blasfémia, o que significa uma ameaça às sanções religiosas do tempo.

Para eles, Jesus ameaça assumir o papel de Deus (v.7), o que era pretender demais. Um autor observa que o perdoar os pecados foi a actividade mais perigosa de Jesus, porque se uma sociedade não possui mecanismos para perdoar, os seus membros estarão destinados a viver sob o peso das consequências de qualquer violação.

Recusar o perdão é perpetuar, coesa, a força destruidora do ódio e da vingança, é querer manter na subjugação do medo e da humilhação o suposto condenado, quer se trate de um individuo ou de uma sociedade inteira.

A recusa de perdoar o pecado (ou o domínio do dispositivo do perdão) significa, pois, dispor de um grande poder social. Por isso, a atitude de Jesus foi uma grande ameaça às formas vigentes desse tipo de controlo social.

O próprio desenvolvimento de qualquer povo ou nação fica indefinidamente adiado, quando faltam mecanismos de perdão. «A falta de perdão, especialmente quando alimenta o prolongamento de conflitos, supõe custos enormes para o desenvolvimento dos povos. Os recursos são destinados para manter a corrida aos armamentos, as despesas de guerra, as consequências das represálias económicas.

Acaba, assim, por faltar os recursos financeiros necessários para gerar desenvolvimento, paz e justiça.

Quanto sofrimento padece a humanidade por não saber reconciliar-se, e quantos atrasos por não saber perdoar!», diz João Paulo II, na sua mensagem para o dia mundial da paz, com o título: Não há Paz sem Justiça, não há Justiça sem Perdão, de 1 de Janeiro de 2001.

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