Waldemar Bastos: “O reconhecimento do prémio Nacional de Cultura e Artes nem fazia parte dos meus horizontes”.

Os seus anos de carreira confundem-se com a própria idade, considerado o segundo melhor compositor do mundo faz da arte “reflexo da própria experiência”. Após reafirmar os votos com os fãs angolanos, o artista reviu momentos que marcaram o antes e depois da distinção no “Prémio Nacional de Cultura e Artes”, e sobre a abertura de um novo ciclo.

293
COMPARTILHE

Por: Jucíria Rodrigues  Foto: DR

Como foi para si “cantar livremente pela primeira vez na sua terra”?
Cantar livremente no meu País, por mais que eu queira, não encontrarei palavras que  definam a profundidade e a imensidão de sentimentos e de emoções.

E como surgiu este convite para encerrar a quinta temporada do show do mês?
Já estava a ser cozinhado com algum cuidado, e com a mudança dos novos tempos no nosso País tudo acelerou e ganhou mais fôlego com o prémio Nacional da Cultura e assim tudo se concretizou.

Que balanço faz deste regresso?
Foram duas noites memoráveis. Como alguém disse, verdadeiramente marcantes, emocionantes e históricas.

A parte em que canta “Velha Chica” é indubitavelmente um dos momentos mais emocionantes dos seus concertos. Cantá-la em solo angolano dá-lhe mais emoções?
A velha Chica foi feita numa determinada época e num contexto nacional mas que em pouco tempo tornou-se universal, devido à uma realidade que afinal é transversal ainda hoje, também é uma realidade infelizmente em muitos países. Claro, cantar em Angola tem uma emoção maior. Foi aqui onde ela nasceu e onde ainda há bem pouco tempo era delicado e um risco falar abertamente política, daí um sabor diferente, muito particular e especial, por extravasar as nossas emoções profundas.

Já conta mais de cinco décadas de carreira e só agora recebeu um prémio na sua terra natal. Sentiu-se desvalorizado durante este tempo?
Só não sente quem não é filho de boa gente, já diz o ditado. Contudo, sempre senti e tornou-se visível que o nosso povo amava a minha música, particularmente o povo mais humilde. Por outro lado, internacionalmente ia crescendo o reconhecimento com a atribuição de vários e significativos prémios. Claro, isso dava-me força para continuar, desligando-me da intencional atitude negativa obsessiva de não ser “reconhecido” oficialmente na minha própria terra. Sempre fiz e faço Arte com Amor. Com todas as minhas forças e honestidade procurei caminhar sem esperar pelo reconhecimento. Li uma vez um livro de Francesco Alberoni que dizia: “Quando fizeres algo fá-lo bem feito, e se vier o reconhecimento é uma dádiva, então agradece a DEUS”. Já agradeci e não me cansarei de agradecer sempre a DEUS, pois com tantas armadilhas foi nele que me escudei, ele não dorme!

E qual foi a reacção ao tomar conhecimento desta distinção?
Como disse já disse, não estava à espera, pois o desprezo sobre o meu trabalho era tal que já era natural que eu em nenhuma circunstância pensava que tal pudesse acontecer. Era algo que não ocupava o meu pensamento e não fazia parte dos meus horizontes. Era impensável, por isso tornou-se uma grande surpresa e fiz a logo a leitura: “novos tempos uma nova aurora.Viva!” Claro, estou humildemente grato. DEUS nunca tarda, haja Fé e Esperança no raiar de um novo dia.

O que ainda lhe falta alcançar?
A música não tem limites, nasci músico e morrerei músico. Sempre partilharei com honestidade o dom que me foi dado do Alto.

Afirmou que este prémio “abre um novo ciclo sem perseguições e calúnias”. Qual será o próximo passo?
Num sistema que dizia ter como ideal a repartição da riqueza e depois deu no que deu, era lógico que teria que se afastar, caluniar e perseguir quem simplesmente cantasse a cultura as coisas simples do Povo. Então há que caluniar. A família em primeiro lugar, e ajudar sempre no que puder os mais humildes, para que tenham uma vida digna nesta nossa terra e outras terras; Foi, é e sempre será o meu ideal de vida.

A sua música sempre foi conotada como política e isto trouxe-lhe alguns contratempos. Mudaria alguma coisa nesta trajectória?
Não não mudaria, pois acredito que tenho dado honestamente o melhor de mim, daí o reconhecimento nacional a nível popular e transversalmente à toda nossa sociedade, bem como o apoio internacional. Estou a falar sinceramente e sem falsa modéstia.

Angola sempre foi a sua inesgotável fonte de inspiração e daí a intemporalidade das suas criações. Que outras coisas potenciam a sua escrita?
A natureza, o homem, a espiritualidade, a elevação, o acreditar na procura de um mundo melhor. Enfim, o acreditar num novo dia que há-de vir, acreditar num novo mundo que vem aí. Eu acredito! Estas são as verdadeiras fontes de inspiração hoje mais sedimentadas pelo que a vida já me deu a observar pelo que já vi e vivi.

Continua com o vocal potente, que cuidados tem com a sua voz?
Não fumo, como equilibradamente, beber água é fundamental, bebo vinho tinto à refeição ou com amigos, e o banho do mar a apreciar a natureza. São estes os ingredientes.

É um artista que tem uma relação recíproca com os fãs e lida com eles diariamente através das redes sociais… Que lugares ocupam na sua carreira e vida?
Os Fãs são uma grande parte importante da minha vida, pois é com eles que reparto a minhas emoções enfim, tanta coisa! São a minha família espiritual, daí o meu carinho e fraternidade.

Que avaliação faz do mercado musical angolano?
Nós os Angolanos amamos a música em geral, e a nossa música muito em particular. Não podemos passar sem ela, porque é quase como pão para a boca. Demos um grande contributo a muitas músicas no mundo USA, Caribe. Colômbia, Brasil, Cuba, Belize etc. Acredito sempre que é um mercado em contínua progressão para alcançarmos bons patamares no futuro.

E do actual momento político em Angola?
Angola está já numa mudança de paradigma. Já começou a resgatar os seus filhos mais nobres, aqueles que tudo deram e dão em troco de nada. Essa é uma das premissas fundamentais para se erguer uma nação com identidade própria, com fundações e alicerces sólidos. Com sinceridade, desejo saúde, força e coragem ao timoneiro do nosso navio, o Presidente João Lourenço, JLo, carinhosamente assim tratado pelo povo.

Que conselhos deixam à nova vaga, de artistas e de angolanos em geral?
Aos músicos deixo a minha sincera, convicta e humilde opinião: oiçam toda a boa música do mundo, em especial a Africana. Façam uma música para nós e para o mundo sedimentada nos nossos arquétipos Angolanos. Sem complexos, sejamos nós mesmos. Assim contribuiremos para a diversidade do jardim universal.

 

 

 

COMPARTILHE