Medidas expansionistas ou restritivas?

As autoridades financeiras tentam adoptar medidas para minimizar os efeitos da crise, desvalorizando a moeda, recorrendo às reservas de moeda estrangeira e manipulando a taxa de câmbio.

30
COMPARTILHE

Por Pedro Cunha Neto

Economista|Antigo Governador do Banco Central

Na última visita a este espaço, passados quinze dias, falávamos de “Medidas expansionistas ou restritivas?” Numa época em que começou a formar-se a bolha, que, de forma lenta mas continua, levou a economia à crise de 1994, a chamada crise ” Tequila “, depois da tempestade de 1982. Em 1982, ocorre uma baixa drástica do preço do petróleo, que representava 80% das receitas do país, que passou de 20.000 milhões de dólares em 1981 para 6.000 milhões em 1982. A economia é afectada visceralmente, as contas públicas colapsam e a pré-crise bate a porta, entra e instala-se no México.

O deficit das contas públicas é enorme e o México entra em inadimplência de pagamento aos credores. O governo americano, na pessoa de Nicholas Brady, então secretário do Tesouro, declarou o perdão de uma parte da dívida dos países da América latina, facto que foi bem aproveitado pelos mexicanos, que substituíram boa parte da dívida por bónus Brady, de valor mais baixo ( quer dizer que se o valor da dívida era de 100 mil dólares o bónus podia valer, por exemplo 70 mil dólares).

Quem comprasse esse título podia trocá-lo pelo seu valor real, isto é 100 mil dólares.
Este artificio foi benéfico para os países da América Latina em relação aos quais o México(era credor). Mas o facto mais importante foi o sinal positivo transmitido aos investidores externos que se dispuseram a entrar com dinheiro novo. Atenuado o problema da dívida externa, a equipe mexicana reformista continuou a dar passos importantes com a liberalização da economia e o controlo rígido das politicas fiscais. Simplesmente que estas medidas estavam aquém das necessárias, pelo que a crise foi debelada mas não resolvida.

As autoridades financeiras tentam adoptar medidas para minimizar os efeitos da crise, desvalorizando a moeda, recorrendo às reservas de moeda estrangeira e manipulando a taxa de câmbio. Os efeitos da crise eram demasiado profundos para serem debelados com as medidas adoptadas. Os resultados foram exíguos: as reservas em moeda estrangeira caíram de 25 mil milhões para 6 mil milhões e a desvalorização da moeda originou profunda depressão da economia com generalização de falências das empresas e o desemprego de milhares de mexicanos para além da fuga dos investidores.

A crise de 1994, foi o corolário do circulo vicioso no modelo económico do México. Como já frisamos neste documento, as medidas estruturais adoptadas para debelar o acumular da divida, o crónico deficit público e a sangria das reservas em moeda estrangeira com a manipulação da taxa de câmbio, a desvalorização do peso, não surtiram os efeitos programados. Para complicar o que já não estava fácil, instalou-se uma crise política com a revolta dos camponeses no estado de Chiapas e a morte de Donaldo Colosio, candidato a presidência.

O fecho da torneira dos investidores asiáticos, também eles envolvidos na chamada crise dos tigres asiáticos ( Coreia do Sul, Hong Kong, Singapura e Taiwan ), constitui a machadada final. À guisa de síntese não estaremos longe da verdade, se afirmarmos que, para além dos problemas decorrentes da gestão pública, apanágio dos países da América Latina, já apontados neste nosso exercício, a descoberta e exploração do petróleo, tal como na maioria dos países do chamado “terceiro mundo”, não foi de forma alguma auspiciosa. O México entrou num ritual de gastos públicos acima dos seus recursos, deixando-se envolver na armadilha da dívida externa.

COMPARTILHE