“Onde estiver o comboio angolano, aí está Portugal. Onde estiver o comboio português, aí está Angola”

A visita de Estado do Presidente português não ficará só por Luanda. Marcelo Rebelo de Sousa viajará por Benguela e Huíla. Em entrevista ao Vanguarda, o Presidente reforça a ideia de ter uma visão mais rica da Nação angolana.

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Por Ana de Sousa

O senhor Presidente ainda não chegou a Angola e já ouvimos falar da ‘maior visita de um chefe de Estado português a `Angola’ ou de ‘uma onda de carinho’? Como reage a uma fasquia tão elevada para esta sua segunda visita?

O que mais importa é que se vive um momento motivador nas relações entre Angola e Portugal,depois de anos, demasiados, de sensação de compasso de espera, de adiamento,de falta de mais próximo contacto.

Acreditamos que a onda de carinho será de grande reciprocidade, foi assim antes, o senhor Presidente conquistou Luanda, e será assim agora, mas com uma dificuldade – ou não! – acrescida.

O senhor Presidente vai a Benguela e ao Lubango, que expectativas tem para estas deslocações? Lugares onde há uma marca portuguesa – e colonial – muito forte?

Corresponde a uma forte vontade minha de não ficar só em Luanda, mas, também, de proposta angolana, permitindo abarcar uma visão mais rica e variada desse portento de força e de futuro que é Angola, à escala regional e global. E nessa realidade não só cabe como desempenha um papel muito importante a notável comunidade portuguesa dispersa por todo o território angolano.

O senhor Presidente tem tido a preocupação de reconciliar Portugal com o seu passado colonial. Durante a sua deslocação a Angola considera que haverá espaço para essa reflexão e para uma interpretação do que fomos enquanto império?

Todas as Nações, e, em particular, as mais antigas, têm de ter sempre presente o seu passado, no que teve de melhor e de pior, de sucessos e de fracassos. Essa capacidade de se ver ao espelho da História com verdade é essencial para construir o futuro.

Um detalhe, antes de passarmos a outro tipo de questões. Vai chegar no dia 5 de Março, a tempo de um jantar privado com o Presidente  João Lourenço, que, coincidentemente, será um jantar de aniversário. Já comprou um presente  para lhe oferecer?

Por falar em verdade, no momento em que respondo à sua legítima curiosidade, ainda estou a ponderar sobre o que irei oferecer como simbólica mas amiga lembrança pessoal.

O ministro da Relações Exteriores  angolano, Manuel Augusto, já manifestou publicamente a  vontade de Angola dar ‘um salto  qualitativo’ na cooperação com Portugal. Com que amplitude é  que esse salto pode ser dado, e em  que áreas?

Em todas as que forem possíveis. Das  sociais às educativas e culturais, das  económicas às financeiras. Não há  áreas tabu, como é natural entre  amigos e irmãos.

Pode adiantar-nos quem faz parte  da comitiva que se deslocará com  o senhor Presidente a Angola?

O Governo estará presente em especial  força na política e na economia. E,  depois, sei que empresários, os mais  variados e empenhados, estarão  também presentes. Queremos que seja, além de um momento de encontro e celebração, um tempo de trabalho.

Quando o primeiro-ministro António Costa visitou Angola (em Setembro do ano passado) e se deslocou à Assembleia Nacional – em férias parlamentares – só esteve com deputados do MPLA.

Acreditamos que agora será diferente, tem agendadas reuniões com os líderes dos partidos da oposição angolanos? Se sim, podemos saber com quem?

Terei a honra de falar para o plenário ou seja para todos os eleitos do povo angolano. E esse ambiente compreensivo estará sempre presente na ideia matriz da visita presidencial.

De entre todos os assuntos a tratar com Angola, há a questão dos pagamentos das dívidas às empresas portuguesas. O ministro Augusto Santos Silva trouxe,

Com uma ideia central – trabalhar para o crescimento angolano. Depois, há apostas mais a prazo – também económicas, mas sociais, culturais e institucionais-administrativas. O essencial é que cada visita seja um começo de caminho, não um fim.

Parece-nos que há um maior comprometimento de Angola com a CPLP, falou-se, há bem pouco tempo, da possibilidade de um canal de televisão abrangente, acha uma boa ideia? Vai contribuir, na medida do possível, para a sua concretização?

Tenho elevadas expectativas quanto à presidência angolana da CPLP. Como reforçar a nossa ligação, desde já na intensa presidência cabo-verdiana, isso é tema de estimulante debate. Em que nenhuma ideia deve ser excluída.

O Presidente João Lourenço trouxe, claramente, mudanças significativas, na forma como governa o país e na forma como coloca o país no mundo. É óbvia a percepção positiva que se tem de Angola no plano internacional.

Olhando para esta dinâmica como um comboio em andamento, recentemente, de Luanda a certeza que os pagamentos se farão no ritmo possível para o tesouro angolano. Voltará a abordar essa questão?

Tem-se trabalhado muito, depressa e bem. Com resultados acima das expectativas. Um avanço relevante desde o arranque, há seis meses, passando pela visita presidencial de Novembro último.

O senhor Presidente tem, por certo, uma leitura muito própria das relações entre os dois países.

Quais são as áreas onde se deve intensificar a cooperação? E de todos os dossiers em preparação, o que é que nos pode adiantar em termos concretos?

É uma cooperação pública e privada em todos os azimutes. E a rápida e eficaz resposta ao dossier financeiro permite agilizar actuações comuns em ritmo mais rápido no futuro imediato.

Portugal está fora ou viaja numa das carruagens?

Onde estiver o comboio angolano, aí está Portugal. Onde estiver o comboio português, aí está Angola. Uma e outro sempre em posições de destaque.

Para além da relação institucional, como definiria a sua relação pessoal com o Presidente João Lourenço e a primeira-dama, Ana Dias Lourenço?

É difícil não criar natural empatia, conhecendo o Presidente e a Senhora Doutora Ana Lourenço de forma mais próxima e aberta. Uma empatia que anda paredes meias com a amizade.

Alguma vez o Presidente João Lourenço lhe perguntou como fazia – e como se sentia – para desempenhar o seu cargo de uma forma tão (quase) informal e de tanta proximidade com os cidadãos?

Falamos muito à vontade sobre tudo o que pode ser importante para os dois povos. Só assim nasce a total verdade na compreensão mútua. E muito tenho aprendido com o que o oiço e reflito acerca deste importante momento angolano e do fundamental impulso dado pelo Senhor Presidente João Lourenço.

Para terminar, e porque falamos de proximidade com os cidadãos, agora, já com alguma distância, que leitura faz dos acontecimentos do bairro da Jamaica, e em que medida é que o ‘tema’ pode macular o que se está a construir entre os dois países?

Como ficou claro no balanço sereno dos factos, nada nem ninguém conseguirá atingir ou travar a dinâmica existente entre os nossos povos e os nossos Estados.

Sempre se disse que os dois povos estavam mais próximos do que os dois Estados. Acha que a partir da sua viagem a Luanda, essa asserção se transformará? A proximidade entre os dois Estados estará no mesmo patamar que o carinho entre os dois povos?

Os povos vão sempre à frente com a sua imaginação e criatividade. O nosso grande desafio é não ficarmos para trás como Estados.

Uma curiosidade: pensa retribuir e convidar o Presidente João Lourenço para o seu aniversário em Dezembro, dia 12?

Acaba de me dar uma boa ideia. Mas terei de ver onde pára a minha família, que é muito complicada na sua dispersão, dividida entre Portugal, Brasil e China.

Que eu gostava de partilhar o aniversário, gostava… Ainda que sabendo que 12 de Dezembro em Portugal pode ser um gelo chuvoso.

Retenho a sugestão e vou trabalhá-la, sempre tendo presente que uma agenda como a do Senhor Presidente João Lourenço deve ser um quebra-cabeças maior do que o da minha própria agenda…