Isaiah Berlin, os conceitos de liberdade ou as próteses alheias (parte I)

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Por Luís Kandjimbo 

Escritor e Professor universitário 

As minhas experiências de privação de liberdade, em dois contextos históricos diferentes, constituem a razão do apreço que tenho pela obra de Isaiah Berlin.A primeira experiência, que durou algumas horas, ocorreu no período colonial, em 1972, quando estudante do ciclo preparatório, fui detido pela polícia de segurança pública, acusado de ser «terrorista», por ter manifestado exaltados sentimentos de pertencer a uma pátria imaginária ainda inexistente.

Nessa época, com um tio e meu irmão eu ouvia o programa radiofónico Angola Combatente do MPLA, emitido a partir da cidade de Brazzaville.

A segunda teve lugar na década de 80, quando ao abrigo do exercício da liberdade de expressão fui detido por longos seis meses, acusado, cumulativamente, de ter escrito um texto subversivo e pela prática de «diversionismo ideológico» e «afirmações perigosas». Trata-se de um tipo de experiências morais vividas por muitos angolanos ao longo das quatro décadas de independência. O que se revela urgente neste momento, quanto a mim, é conhecer bem a história dos conceitos e ideias de liberdade, bem como o seu sentido no contexto donde são importadas os valores subjacentes às filosofias morais, teorias e filosofias políticas com que hoje operam as instituições angolanas e seus agentes, por exemplo.É isso que permite evitar a transformação das causas de atrocidades passadas em virtudes morais no presente e do futuro.

Por essa razão, o conhecimento das ideias políticas e filosóficas sobre a liberdade levam-me a convidar o leitor para o diálogo com o filósofo Isaiah Berlin (1909–1997).

O meu primeiro contacto com o nome de I. Berlin ocorreu em 1989, um ano após a minha segunda experiência de privação de liberdade, quando em Paris li um artigo seu na revista Lettre Internationale com o seguinte título «A Busca do Ideal». A partir daí tornei-me leitor assíduo deste historiadordas ideias e filósofo britânico de origem russa e judia.Ele é um dos meus preferidos ensaístas no domínio da filosofia política do século XX.
O meu primeiro contacto com o nome de I. Berlin ocorreu em 1989, um ano após a minha segunda experiência de privação de liberdade Isaiah Berlin nasceu na cidade de Riga, capital da Letónia, em 1909.

Mas em 1916 a sua família fixa-se na cidade de Petrogrado, também designada São Petersburgo. Aí testemunha a eclosão da Revolução Russa.
Passada a fase revolucionária liberal, seu pai, que era comerciante de madeira, sente os efeitos da revolução bolchevique. Por isso, decide abandonar a Rússia, emigrando para a Inglaterra. Aí Isaiah Berlin realiza a sua formação escolar. Frequenta a Universidade de Oxford, tornando-se efectivamente cidadão britânico. Inicia a sua actividade docente universitária como professor de filosofia em 1932. Após uma breve passagem pela diplomacia, durante a Segunda Guerra Mundial, entre 1941 e 1945, trabalhou em Nova Iorque, Washington e Moscovo, sucessivamente.

Como diplomata, regressa à Rússia. Assim, conheceu pessoalmente escritores como Boris Pasternak e a poeta Ana Akmátova. Vivia-se um ambiente marcado pela conferência de Potsdam, logo após a a Segunda Guerra Mundial. Sobre Ana Akmátova, numa entrevista a Ramin Jahanbegloo, diria: «Tê-la conhecido foi um dos grandes privilégios e uma das experiências mais emocionantes da minha vida». Em 1946, regressa aos corredores da universidade.

A partir da década de 50, inscrevendo-se na fecunda tradição analítica liberal inglesa, desenvolve uma actividade intensa que vai definindo as suas grandes preocupações intelectuais em que se destaca a problematização da liberdade humana. Este é o tema sobre o qual se debruçava Isaiah Berlin no texto que li em 1989.Tratava-se do discurso proferido em 1988, na cidade de Turim, por ocasião da atribuição do Prémio International Giovanni Agnelli. Quando respondia à pergunta de Ramin Jahanbegloo sobre esse ideal que dizia perseguir, a propósito desse discurso Isaiah Berlin, afirmou: «As palavras por mim dirigidas à plateia […] tinham por objectivo indicar que a busca de uma solução única, final, universal, aos problemas dos homens constitui uma miragem».

Nesse texto Isaiah Berlin identifica dois factores que em seu entender sustentam a história humana no século XX: os avanços das ciências naturais e a tecnologia; e as tempestades ideológicas que tinham virtualmente alterado as vidas de toda a humanidade, designadamente, as tiranias totalitárias de esquerda e direita, tal como a que se seguiu à Revolução Russa.

O perfil de Isaiah Berlin enquanto liberal define-se bem no capítulo em que se concentra na abordagem analítica dos dois conceitos de liberdade. A liberdade é assim analisada a partir de duas expressões linguísticas: liberdade negativa e liberdade positiva.

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