De Churchill a Lourenço, o homem e a sua circunstância

João Lourenço, ao contrário de Marcelo Rebelo de Sousa, por exemplo, é o titular do poder Executivo, e o que sentimos, nós, os jornalistas que acompanhamos diariamente a realidade angolana, é que temos presidente mas não temos governo.

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Ana de Sousa 

“Quem são as suas referências quando pensa num líder político”, perguntou o jornalista português ao presidente angolano. João Lourenço hesitou, falou do desígnio bíblico de Agostinho Neto, comparando a Moisés, e da capacidade de perdoar de Nelson Mandela, capacidade que João Lourenço não tem – o seu sorriso travesso quando falou do antigo Presidente José Eduardo dos Santos testemunhou-o.

Mas enquanto João Lourenço hesitava, pensávamos em Winston Churchill, uma das figuras mais marcantes e intensas da política mundial do século XX. Talvez o Presidente João Lourenço não saiba, mas Churchill chegou a primeiro-ministro aos 65 anos, a 10 de Maio de 1940, e nesse dia escreveu no seu diário que tinha chegado ao fim “dez anos de travessia do deserto”. Durante toda a década de 30 do século XX, o político inglês conheceu o escárnio, a crítica e o infortúnio enquanto bradava, sozinho, contra o monstro nazi personificado por Adolfo Hitler.

A Inglaterra estava demasiado empenhada numa política de apaziguamento e Neville Chamberlain negociava com Hitler em Munique, isolando, em Londres, um desanimado Churchill que se arrastava por Whitewall. A 13 de Maio de 1940, Churchill entra na Câmara dos Comuns como primeiro-ministro, sendo mais aplaudido pelos trabalhistas do que pelos conservadores do seu partido. E foi nesse dia que disse aos seus “só tenho para oferecer sangue, trabalho, suor e lágrimas” contra “uma tirania monstruosa” com um único propósito “vitória, vitória a qualquer custo”. O ano de 1940 consagrou Winston Churchill num percurso político feito de avanços e recuos, e de uma série derrotas. E aqui chegados já se percebeu por que é que intuímos semelhanças entre um político e o outro.

É também por isso que de tudo o que disse João Lourenço na entrevista à RTP destacamos: “É preciso que se diga que não sou alguém vindo de outro país, de outro planeta, de outro partido político. Eu sou parte do sistema. Cresci dentro do MPLA e, muito antes de vir parar à Presidência da República, acompanhei tudo o que foi sendo feito de bom e de mau pelo meu próprio partido”. Temos aqui um profundo e honesto acto de contrição.

Durante anos, e fazendo parte do sistema, João Lourenço assistiu em silêncio ao monstro que o seu próprio partido alimentava. É nesse contexto que vemos o que disse antes, “tinha de haver uma razão, não por mero acaso que na sua agenda eleitoral o MPLA escolheu o combate à corrupção como prioritário, concluiu-se na altura que os níveis de corrupção no nosso país tinham atingido níveis insustentáveis”. Assumiu que só lidera esse combate e que acredita “que será uma questão de tempo até termos a garantia de que esta batalha será vitoriosa”.

Escrevemos aqui que Churchill quando chegou à Câmara dos Comuns como PM foi mais aplaudido pelos trabalhistas do que pelos conservadores do seu próprio partido. Achamos que João Lourenço tem colhido mais simpatia na sociedade civil e nos partidos da oposição do que no MPLA. É por isso que vemos em: “eu, como bom soldado, estou simplesmente a cumprir aquilo que o meu partido me orientou a fazer” um recado. Não é o Presidente que é um bom soldado, obediente e disciplinado, é o MPLA que tem de fazer um esforço para o acompanhar. Na dúvida, vejamos: “disse, creio que no congresso extraordinário que me elegeu como presidente do partido, que o tempo da impunidade tinha ficado para trás e que deixava de haver intocáveis no nosso país”.

Por mais voltas que se dê, temos a percepção que há uma perseguição à ‘gloriosa família’. A essa pergunta João Lourenço reagiu com alguma impaciência, andou às voltas com aqueles e outros filhos. É notório que o Presidente já perdeu o tempo que tinha a perder com o assunto, agora remetido para a categoria de “cidadãos comuns”. Mas quando chegou ao pai, a José Eduardo dos Santos, aí o Presidente admitiu a possibilidade de, e finda a imunidade, JES ser julgado pela justiça. Alguém que diga a João Lourenço que abrir a ‘caixa de Pandora’ significa libertar fantasmas que não controlamos…

João Lourenço, ao contrário de Marcelo Rebelo de Sousa, por exemplo, é o titular do poder Executivo, e o que sentimos, nós, os jornalistas que acompanhamos diariamente a realidade angolana, é que temos presidente mas não temos governo. Sobre isso mesmo gostaríamos de ter questionado João Lourenço. Gostaríamos de lhe perguntar pelas políticas do seu governo, pela actividade dos seus ministros, em que medida é que têm vida própria e autonomia, se a sua dependência da orientação política do ‘chefe’ não faz com que seja indiferente termos ministros ou secretários de Estado. Temos um Presidente com um claro projecto para o país, modesto na sua formulação mas grandioso na sua conclusão: “o sonho de qualquer chefe de Estado é melhorar as condições de vida, de uma forma geral, dos cidadãos, não apenas a nível material, que é importante, como também espiritual, os direitos e liberdades dos cidadãos.” Temos um chefe de Estado e líder do Executivo mas não temos Governo, e essa é (também) uma responsabilidade do PR.

Na entrevista à RTP o Presidente deu-nos as respostas certas quanto ao combate à corrupção e fim da impunidade, quanto à política externa e como é visível a melhoria do ambiente de negócios em 17 meses de mandato, mas depois quando chegamos a questões concretas, sensíveis, como a existência de fome em Angola, o Presidente baralha conceitos – a fome não se confunde com má nutrição.

Desde o discurso inaugural que temos acompanhado com atenção todos os discursos e intervenções públicas de João Lourenço, lamentando profundamente que nunca tenha tido disponibilidade para ser entrevistado por órgãos de comunicação social angolanos, a entrevista colectiva anual sabe a pouco, a muito pouco. Torna-se incompreensível para nós, jornalistas que trabalhamos por cá, essa ideia de incapacidade que o Presidente nos confere. Não a merecemos.

 

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