A última vida do gato Abel

Quando os partidos remetem para o Tribunal Constitucional a resolução dos seus problemas não merecem ser partidos. Não merecem qualquer voto e menos ainda confiança.

210
COMPARTILHE

Por Ana de Sousa

Há 497 razões que explicam o desabar da CASA-CE. Mas quando os partidos remetem para o Tribunal Constitucional a resolução dos seus problemas não merecem ser partidos. Não merecem qualquer voto e menos ainda confiança. E é uma pena. O terceiro partido é sempre um elemento refrescante num sistema partidário – ainda mais num sistema partidário conservador como o angolano, saído dos movimentos de libertação. A CASA-CE foi isso mesmo. E a popularidade de Abel Chivukuvuku deu mais do que o voto útil numa alternativa.

Em Angola, a memória traumática vive, respira, tem alma, e ressentimento. Está em todo o lado e nas três forças partidárias, às voltas com as suas histórias mal resolvidas, que foram silenciadas em nome da disciplina, da sobrevivência ou do jogo político. E a que tinha menos história e menos memória, a CASA-CE, prestou-se a um jogo pueril, e quase mesquinho, que embaraça todos os protagonistas. Ninguém merecia, e quem merecia menos é o eleitorado jovem que teve esperança na onda amarela suscitada pelo político mais próximo dos eleitores. Ainda, Abel Chivukuvuku.

Estamos na ressaca da passagem feérica e terna de Marcelo Rebelo de Sousa, o Presidente de Portugal, por Angola. Naqueles dias, na rua ou nas recepções, muito se comentou o que pensaria o Presidente João Lourenço daquela “estrela no firmamento angolano” que tocava o povo angolano de uma forma quase messiânica. Pensamos que terá sorrido. Mas, arriscamos, o afecto do Presidente angolano é de outra índole, é, diríamos, quase púdico. João Lourenço não é dado a contágios emocionais, vive, em privado, uma relação mais pessoal com o Presidente português, e, em público, mantém a postura institucional, ainda que vagamente mais calorosa do que o habitual.

Os recentes acontecimentos em Luanda, no ‘Rocha Pinto’, com a morte da zungueira Juliana – um fenómeno que não se esgota no uso excessivo da força, mais, na miséria -, seria algo em que o ‘presidente dos afectos’ se envolveria, naturalmente. O Presidente João Lourenço, não. Mas Abel Chivukuvuku, sim.

E os angolanos sabem disso. Fosse a Constituição outra, e a eleição de independentes era uma possibilidade que ninguém desconsideraria. Mas não é. E nesta impossibilidade Abel Chivukuvuku já gastou algumas vidas. E quando saiu da UNITA, em 2012, a Constituição já era a que era. Quando o entrevistámos, em Abril de 2018 o então presidente da CASA-CE, o seu tom era de um optimismo que agora nos parece quase ingénuo, até porque ele sabia, antes de nós, que a CASA-CE enfrentava sérios problemas. No entanto, o seu discurso foi (e, provavelmente, não podia ser outro) entusiasta, “há que perceber que vivemos numa sociedade plural, e a nossa organização é feita à imagem desse conceito”, acrescentando “para uma experiência ímpar, posso dizer que é uma coisa extraordinária”. Não foi, foi mais do mesmo.

Foi um projecto que se pulverizou, e para isso bastou uma vaga ideia de poder de um grupo parlamentar que passou de oito para 16, sem que ninguém se preocupasse em entender o fenómeno. Sem que ninguém se preocupasse em perceber que se a CASA-CE “tinha mudado a forma de fazer política no país” não podia cair nos mesmos erros dos partidos tradicionais. Mas caiu, e para pior.

“You know, they say it’s downhill after the first kiss”… foi do que me lembrei quando, no passado fim-de-semana, ouvia bocados do discurso de posse de André Mendes de Carvalho ‘Miau’. Por mais simpático que nos afigure o novo líder da coligação eleitoral, por mais sério e estruturado que seja o seu discurso e a defesa dos seus princípios e valores, ninguém com o mínimo de presciência dirá que a CASA-CE se vai erguer dos escombros. Nada que anime Abel Chivukuvuku, que terá de partir quase do zero – os próximos dias dirão da força dos independentes e da sua capacidade para alavancarem Chivukuvuku para concretizar “o seu sonho para Angola”; ou então foi para ele que Samuel Beckett escreveu “tudo desde sempre, nunca outra coisa, nunca ter tentado, nunca ter falhado, não importa, tentar outra vez, falhar outra vez, falhar melhor”.

E os outros partidos? O MPLA está em vésperas de um congresso extraordinário, que terá certamente esse carácter, e onde se definirá, de uma vez por todas, quem são os homens do Presidente João Lourenço no partido, o que não é um facto despiciendo. É claro que o partido do poder prefere, por estes dias, colocar o foco nas eleições autárquicas, porque, e mesmo antes do congresso, o debate faz-se na Assembleia Nacional. E já não é sem tempo, temos sentido que neste aspecto o poder executivo tem tido uma actividade tão intensa que tem secundarizado ainda mais o frágil poder legislativo. Que Abril seja o mês da mudança. Que a AN seja o centro de um dos mais importantes debates da Angola pós-independência e cujo benefícios para a democracia de um país são inquestionáveis.

E a UNITA assinalou, esta semana, o 53.º aniversário da sua criação, recordando a vida e obra de Jonas Malheiro Savimbi. Os exames de ADN do que resta do primeiro líder são também um exame de ADN do partido – em ano de congresso ordinário para eleger (ou não) um novo líder -, e um exame de ADN do país. A reconciliação nacional celebrada por todos é real? E é extensível a todos os angolanos? Se a figura de Jonas Savimbi for mais consensual, do que pensamos que é, então, o ciclo pode fechar-se com a candidatura de Rafael Massanga Savimbi ao lugar que Isaías Samakuva deve deixar vago este ano.

COMPARTILHE