Mais do que uma companhia de artes, um viveiro de talento nacional

Fundada há mais de três décadas, a Companhia de Artes Horizonte Njinga Mbande vai inaugurar nos próximos dias o primeiro auditório. Em vésperas da abertura, conversámos com Adelino Caracol, fundador do grupo que falou na primeira pessoa sobre o segredo da longevidade bem como os planos futuros da companhia.

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Por Jucíria Rodrigues 

Após 33 anos de trajectória qual é o balanço que faz da vossa actividade?

Quando comecei não esperava que de facto o teatro tivesse essa expansão, nem imaginava em Angola falar-se de teatro não diria que era embrionário porque já víamos teatro nalgumas empresas mas acho que o balanço é bem positivo.

Como é que considera o momento actual para o teatro?

Considero o momento do despertar, porque há expansão em termos quantitativos. Quando falo em despertar as pessoas podem pensar depois de tantos anos como é que se fala em despertar, é despertar na própria maturidade ou seja o teatro existe as pessoas participam, mas falta toda uma relação, falta primeiro a compreensão e depois a maturidade que se calhar vai fazer com que as pessoas tenham noção que fazer teatro pode ser profissão também, se for só fazer por lazer é complicado.

Em termos de filosofia existe uma analogia daquilo que era o teatro há 33 anos e o que é actualmente?

Claro que sim, veja que falar dessa analogia não podemos deixar de falar do momento político que o país atravessava, porque estávamos no partido único e o estado assumia até a cultura, era muito mais fácil. As pessoas as vezes não se dão conta dessa transição política que na realidade quase que passamos de país de estado que assumia um monte de coisas para o capitalismo.

A vossa actividade também abarca música e dança mas fala-se muito mais do teatro?

Exactamente, quando começamos com o colectivo de artes Horizonte Njinga Mbande fizemos mesmo um “colectivo de artes” e as pessoas pensavam que era só denominação, mas não. Tínhamos música, dança, teatro, artes plásticas, tínhamos uma serie de actividades artísticas que hoje não existem, precisavamos apostar mais em algumas do que noutras inclusive já produzíamos alguns espetáculos, fomos os primeiros a produzir o espetáculo dos SSP como grupo musical Horizonte Njinga Mbande.

Há possibilidade de se fazer um resgate desse “colectivo de artes”?

Não sei porque o nosso caminho hoje está mais direccionado ao teatro. O que acho que é possível que venha a acontecer é nos dedicarmos também ao cinema porque precisamos que os actores tenham mercado e o mercado do teatro é insipido, na verdade é um mercado muito arriscado porque tu tens uma sala e tens um público e de repente já não tens público, então é importante que o teatro para nós Horizonte Njinga Mbandi vai desembocar em termos de cinema seriados televisão essencialmente também.

Em 2010 vocês deram início a um leque de formações…

A partir do momento que assumimos um compromisso não paramos apesar dos altos e baixos. Neste momento estamos a dar formação de actores, edição, camara e apresentadores de televisão.

Como é que tem funcionado a vossa programação?

Por norma temos um período de três meses por curso em termos de conteúdo achamos que devíamos “copiar” de algumas escolas a nível exterior e tivemos professores estrangeiros brasileiros, espanhóis e sul africanos.

Tencionam fazer a transição para academia?

Pensamos nesta transição, mas o grande problema é que isto não faz parte das preocupações do Ministério da Cultura. Hoje vejo a discussão que os grupos de teatro deviam ser instituições de utilidade pública ou deviam ser constituídas por associações culturais, há ainda essa confusão em termos de enquadramento jurídico a nível dos grupos culturais e das associações, isso faz com que os grupos não tenham acesso a empréstimos bancários por mais ideias que tenham, não tenham acesso a grandes sonhos, todavia, é importante que se tenha essa abertura, porque aí nós sonharíamos em ter uma universidade, em ter uma academia e sair tão rapidamente destes cursos básicos.

 

Está prevista a inauguração de um novo auditório, como pretendem baptizá-lo?

Continuará a ser auditório Njinga Mbandi, devemos isso a rainha, até porque é histórico e estamos na escola homónima, portanto, vamos manter. Pretendemos inaugurar no dia mundial do cinema, 27 de Março ou no dia da paz, 4 de Abril.

A nível financeiro, trata-se de um projecto independente ou contaram com o apoio de algum sponsor?

Digo sempre que o primeiro apoio do Horizonte Nnjinga Mbande é Deus, porque no início quando procurávamos apoios e patrocínios passamos por muita humilhação e no meio disto há pessoas que prometem e não cumprem.

Portanto, trata-se de um projecto auto-suficiente principalmente dos elementos mais antigos que abdicaram de privilégios pessoais para que todos em colectivos beneficiassem desta infra-estrutura e também graças ao, vamos dizer em termos de apoio graças ao antigo director provincial da educação o Sr. André Soma que sempre nos apoiou.

Professor Adelino é um homem respeitado a nível das artes e, portanto uma opinião pertinente. O que pensa sobre a falta de salas de teatro e de espectáculos em geral?

É um sério problema. Julgo ser importante estender o lazer para que a sociedade em geral tenha acesso a cultura, e é importante que o estado subvencione isto. Julgo que acima de tudo precisamos ocupar os jovens e isso só se faz com boa vontade e investimento sério. Os investimentos são a base, a arte também educa e um povo educado gasta menos em prisões, revertendo essa aplicação às escolas.