Universidade e neocapitalismo

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Por Patrício Batsikama 

Em muitas das nossas sociedades africanas, essa demanda do saber e essa procura de um sentido para a vida, têm uma longa tradição e fecundos cultores. Por
isso, o espírito da universidade não é estranho à nossa cultura. Mas o mundo que
agora vivemos é um mundo global; um mundo onde se globalizou a ideia e prática
de sociedade que tem no seu cerne o espírito de mercado, produtivista, ou, se quisermos
ser mais concreto, capitalista.

O saber e o conhecimento já não são vistos meramente como um bem inerente
à dignidade e condição de humanos e de cidadãos, mas como um bem transacionável,um “activo” de uma sociedade! Investir no conhecimento, é investir em infraestruturas,
conteúdos e serviços técnicos e humanos, que sirvam um mercado competitivo, para produzir e transacionar bens!

Este investimento cabe, em primeiro lugar, às autoridades e responsáveis pelas
políticas de desenvolvimento, em segundo lugar à sociedade civil, que deve ter a
capacidade de responder aos desafios que o mundo contemporâneo lhe coloca e responder com iniciativas e propostas sérias e eficazes, dentro de uma perspectiva de
cidadania activa; e, por último, às famílias e indivíduos, que devem ver na educação e
na consolidação do conhecimento científico uma oportunidade para a ascensão
social e para a sua valorização, enquanto pessoas e cidadãos. Uma boa formação
académica implica, necessariamente, um investimento financeiro. A grande questão
é a de se saber quem providencia esse investimento, em que medida e com que
resultados!

Investir em conhecimento científico é investir no desenvolvimento
de um país; é investir na justiça social; é investir numa sociedade mais autónoma,
emancipada e capaz de responder aos desafios do mundo actual. Quando falamos
de uma possível comercialização do conhecimento por parte de instituições universitárias (o que não é totalmente uma questão negativa) ou de uma comercialização
de certificado (o que já é muito mau), estamos a falar de situações novas e desafiadoras
para o futuro da universidade. Se o primeiro caso se insere numa lógica de
desenvolvimento do “mercado do saber”, dentro do espírito de mercado livre e
capitalista, o segundo é já uma questão judicial e penal, que convém desde já evitar e sancionar.

Assistimos, então, a estratégias institucionais e a marketing de promoção
e venda de produto: um curso universitário!

Dentro desta lógica institucional e de marketing, cada instituição universitária,
para além das leis académicas estabelecidas e exigências científicas desejadas, obedece a determinadas leis comerciais. A economia deste produto olha para o estudante
como um potencial cliente, que procura agradar e cativar para o seu projecto,
ou seja, para a sua oferta!

É preciso acautelar todo o processo desta economia, pois cada instituição
deverá cativar o cliente pela qualidade da sua proposta, pela exigência do produto,
de forma a garantir ao cliente um futuro melhor, para que as suas expectativas
não fiquem defraudadas. Ainda bem que o Ensino Superior Público é gratuito em
Angola! Mas tenho as minhas sérias dúvidas que assim continue para sempre,
porque as sociedades são dinâmicas e o que vemos por esse mundo fora não sustenta
a perenidade desta situação! O investimento cada vez mais exigente no Ensino Superior e na Investigação obriga a que uma sociedade tome decisões difíceis.

Ou se entende o investimento no conhecimento e na investigação como a
base da riqueza de uma nação e a base da construção de uma sociedade mais justae livre, ou se deixa esse investimento para grupos mais capacitados.

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