José Eduardo dos Santos, rewind

O Presidente João Lourenço, no seu discurso no Cuando Cubando, deu um passo atrás na sua estratégia mais ofensiva. Mas o caminho é o da détente.

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Ana de Sousa 

O 23 de Março, Dia da Libertação da África Austral, é uma data que o Presidente e o Governo querem transformar num dia inaugural para a região, alargando-o ao continente e ao mundo. No mesmo momento, o fim do apartheid, a independência da Namíbia e o fim da guerra civil em Angola, com a vitória militar do MPLA apoiado pelas tropas cubanas e o armamento russo. E nem todos estão de acordo. Mas este parece ser o facto mais irrelevante da memória desse dia.

O que levou os angolanos a acorrerem às redes sociais e a lançarem uma sombra sobre um dia tão radioso, foi a ausência do antigo presidente Dos Santos. E essa ausência não pode deixar de ter um significado político – ‘o arquitecto da paz’, que não foi esquecido por João Lourenço no seu discurso no Cuito Cuanavale, recusou-se a estar presente na celebração de um edifício onde colocou o primeiro tijolo. O homem reservado que sempre foi, faz agora uso da sua reserva como afirmação política.

O que nos leva a pensar que, provavelmente, não estará presente numa futura reunião do Conselho da República, se, e quando, o Presidente João Lourenço o convocar. Pensamos que é altura para uma reflexão sobre a forma como o actual Presidente lidou com o antigo. Sem juízos. Por mais estranho que nos pareça, dizem-nos que a transição de poder em Angola, que ainda não está concluída, se fez, meticulosamente preparada, pelos dois homens e por uns happy few da maior confiança. Alguns deles retiram-se discretamente, não solicitaram prebendas, e João Lourenço também não lhes deu, deixando-os ir às suas vidas. Deixou os estragos maiores para a família Dos Santos. Era inevitável, também porque foi peregrina a ideia do pai de entregar à filha a Sonangol e ao filho o Fundo Soberano e, pior, ter perdido o controle sobre uma e sobre o outro.

Do conluio entre José Eduardo dos Santos e João Lourenço presume-se que concordaram que o monstro, transformado em família e elite política, estava despudoramente ávido e ganancioso e que havia de pôr termo a uma realidade “chocante e repugnante”. José Eduardo dos Santos estava incapaz, refém da sua teia de interesses e afectos. E João Lourenço estava ansioso por desempenhar esse papel. Os dois homens terão concordando quanto ao princípio, mas, no fim, Dos Santos ter-se-á surpreendido, para não dizer magoado, com algum ressentimento e com o ímpeto moralizador de João Lourenço, num doa a quem doer. E doeu especialmente a JES.

Mas Dos Santos é Dos Santos, em Angola e no mundo. E Isabel pode estar menos rica mas a sua reputação internacional permanece intacta, e até se fortalece. E Filomeno pode ter passado seis meses no Hospital Prisão de São Paulo, onde, quem assistiu, diz que não se permitiu ser tratado como um preso comum. E não foi.

João Lourenço, que no Cuito Cuanavale voltou a ser o general e no seu discurso dispôs palavras transformadas em peças de artilharia, como se a batalha estivesse a acontecer ali mesmo, à frente dos seus olhos, tem também o olhar de um historiador, tanto quanto o despertou para a História a sua licenciatura. Acredito que terá lido obras fundamentais da historiografia, de Tucídides e Heródoto, e, acreditamos, The History of the decline and fall the Roman Empire de Edward Gibbons. E saberá que Gibbons olhando para umas ruínas, em Roma, decidiu entender, interpretar e explicar, o fim da cidade e do império, tendo para si que a história é um quadro terrível de crimes, perversidades e desgraças do género humano, e que podemos encontrar a explicação num fenómeno, mas que não o podemos isolar de todos os outros.

Agora que os estragos estão feitos, não seria má ideia que o Presidente João Lourenço devolvesse, tanto quanto possível, ao antigo Presidente a gravitas do seu estatuto, por mais que se olhe para ele como uma árvore que ao mesmo tempo que dava sombra permitia que as suas raízes secassem a terra, numa extensão inimaginável. Ficámos a saber, por estes dias, que ainda não chegou à Procuradoria-Geral da República qualquer processo relativo à lista dos marimbondos, a tal que é “chocante e repugnante”, seria bom que chegasse, até para tirar a família Dos Santos da ilha do ajuste de contas. E com isso José Eduardo dos Santos do Miramar e, talvez, voltarmos a ter o presidente emérito do MPLA numa iniciativa do partido.

Angola, poder, ameaças e identidade é um livro de Alberto Colino Cafussa, a surgir em breve, onde também se escreve sobre o que estamos a escrever. Cafussa é jornalista (porque os jornalistas entendem-se sempre no presente), politólogo e, actualmente, assessor de comunicação da Presidência. A perspectiva de Cafussa é mais profunda, ontológica, mas, à superfície, partilhamos da mesma inquietação: que lugar dar ao legado e a José Eduardo dos Santos. Escreve Cafusso: “Falar de José Eduardo dos Santos é um exercício corajoso e ingrato numa altura em que a memória colectiva parece hibernada pelo período mais recente que, diga-se, foi o menos frutífero deste Estadista que permaneceu no poder 38 anos, entre ameaças e progressos”, para acrescentar que o faz numa altura em que “a opinião pública nos parece despida de bom senso e de prudência, tentando ridicularizar um dos activos importantes da memória estratégica de Angola, no que há gestão de guerra diz respeito”.

Diríamos que, e com o que lemos e ouvimos nos últimos dias, é desaconselhável que qualquer tacticismo se sobreponha a esta memória estratégica. O Presidente João Lourenço, no seu discurso no Cuando Cubando, deu um passo atrás na sua estratégia mais ofensiva. Mas o caminho é o da détente.

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