Mwana Afrika: “A nova geração não está num processo de resgate cultural, mas sim de aprendizado mesmo”

Não basta ser boa jornalista, Sandra Elizabeth Quiala emplaca um êxito atrás do outro através do seu “compromisso” em dar a conhecer África. Dinamizadora do projecto baptizado com o seu pseudónimo, Mwana Afrika, começou como um blogue e actualmente é um programa televisivo explorador e sem fronteiras, que selecciona e lecciona o melhor do continente.

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Por Jucíria Rodrigues

Quando surge a vontade de mostrar África ao mundo?
Desde que me conheço como gente que vivo inquieta. Tudo pelo simples facto de sempre ver a nossa África retratada das piores maneiras. Meu sonho sempre foi tentar mudar este quadro. Então desde sempre tive esta preocupação.

“The Mwana Áfrika” começou como um blogue, a partir de que momento é que tomou proporções maiores?
Quando fomos a primeira vez às ruas de Lisboa, com pessoas de várias etnias, várias raças e várias idades vestidas com o nosso traje africano, embelezando aquela capital. Aí foi o início de um apaixonante percurso e traçar de metas.

As oficinas culturais continuam a “invadir” as ruas de Lisboa?
O Projecto tomou grandes proporções e houve a necessidade de constituirmos uma Empresa: a Mwinda – Cultura e Comunicação. Uma Produtora, vários estúdios, escritórios próprios, etc. A ideia é criar uma Academia Africana. As oficinas culturais deixaram de invadir as ruas de Lisboa e passaram por enquanto a invadir as casas dos telespectadores.

Começou a sua actividade jornalística em Angola, por que não começou a vertente televisiva em canais nacionais?
Sempre preferi o jornalismo impresso. Quando me mudo para Portugal, a RTP África descobriu-me enquanto Produtora de Conteúdos televisivos. E mais tarde como potencial Repórter. Experimentei uma vez e gostei. De lá para cá, apaixonei-me pelo mundo da Televisão. Hoje as pessoas lêem muito pouco e percebi que a televisão podia ser um instrumento perfeito para mudança de mentalidades.

Conta-nos detalhes sobre as “mini aulas” que dá (apresenta) sobre África…
O Programa Mwana Afrika – Oficina Cultural é uma verdadeira viagem por África. Vamos às origens e mostramos a verdadeira África: povos, crenças, etnias, cultura, história, hábitos, costumes e muito mais. Num cenário virtual com muito grafismo e boas imagens de arquivo e contemporâneas. Em cada episódios de 3 minutos, um tema específico. O Programa de Emitido na Televisão Pública de Angola (TPA Internacional, e no canal 2 da TPA).

Qual o feedback que recebeu do público angolano?
Todos os dias recebemos elogios de jovens, mais velhos e até de crianças. As aulas têm valido a pena. E isso faz-nos aperfeiçoar cada vez mais o nosso trabalho, principalmente no que se refere a pesquisa.

É possível mensurar esta aceitação com a de outros públicos?
Sim é. Através de alguns episódios partilhados nas nossas redes sociais, temos recebido convites, sobretudo, de Universidades Brasileiras, no sentido de organizarmos por lá alguns workshops com temas sobre África. Hoje pensamos em traduzir os episódios em mais línguas, como o francês e o inglês, para atingirmos outro público a nível de África.

Quantas e quem são as pessoas envolvidas neste projecto?
No Projecto “Mwana Afrika – Oficina Cultural” temos vários e muito bons parceiros como o Grupo GOS, a Ombenje, a própria TPA, e uma equipa de colaboradores residentes em Lisboa. Agora, com a Mwinda – Cultura e Comunicação, se afirmando na Europa, como Produtora de novas narrativas africanas pelo mundo, pretendemos trabalhar com mais entidades e até mesmo recrutar estudantes angolanos em Portugal para estágios nas áreas de Jornalismo, edição ou outras ligadas a comunicação.

Como avalia o mercado para este tipo de projecto?
As pessoas ainda têm medo de investir em conteúdos sérios e que valem a pena. Promove-se mais a mediocridade e assim nunca mais vamos a lado nenhum. A cultura ainda é tida como uma área não rentável. Alguns parceiros, inicialmente, sentem-se retraídos a apoiar Projectos de Comunicação ligados a cultura.
Pretendemos fazer um casamento entre a comunicação e a cultura.

Considera que as lacunas encontradas desde a criação do mesmo até ao momento actual foram supridas ou minimizadas?
Evidentemente.

Na sua óptica, como anda a questão do resgate cultural?
Como assim resgatar, o que nunca se teve? A nova geração precisa aprender. Desconhecemos muito acerca de nós. Então não acredito que seja resgate. Mas sim Aprendizado mesmo.

Qual a sua opinião sobre a não implementação de línguas nacionais nas escolas?
Devia ser preocupação primária dos Ministérios da Educação e o Ministério da Cultura. De todos os elementos fundamentais para a criação de uma identidade, a língua é a principal. É hora de implementarmos as nossas línguas nacionais no sistema de ensino.

Já agora, quantas línguas nacionais fala?
Falo não só línguas de Angola, mas também de outros povos. Falo fluentemente o kikongo e o lingala. Entendo e continuo a aprender o Umbundu, o Kimbundu, fyote e o Swahili. Meu sonho é conhecer várias línguas africanas. Afinal, África possui mais de duas mil e noventa e duas línguas, uma impressionante variedade linguística.

A ideia de lançar livros de ensino básico de línguas africanas continua a fazer parte dos seus horizontes?
Sim. Gostaríamos, caso tivéssemos apoios, de apresentar o Projecto “(…) Por Exemplo”, colectâneas de aprendizado básico de várias línguas africanas. Temos o Projecto quase terminado.

A par disto, que outros projectos estão envolvidos?
Brevemente será apresentado o Projecto Dyetu – Cultura Académica para as Universidades do País. Espero que as Universidades públicas como privadas adiram.

É licenciada em Jornalismo, também em Economia e mestre em Finanças. De que formas é que aplica estas valências?
De nada servem as valências académicas, se não utilizamos para mudar o mundo ao nosso redor. Portanto, aplico todas estas valências no meu dia-a-dia. Combino o Jornalismo com a Economia. Fica tudo mais fácil quando se tem domínio de tudo um pouco.

Pessoalmente se sente realizada?
Claramente que não. Ainda nem fiz 15% daquilo que sou capaz de fazer.

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