O capital ilícito dos nossos ‘Changs’

O ferro está e continuará quente e as marteladas do ferreiro, entenda-se PGR, antevêem grandes surpresas.

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António Pedro, director 

O ferro bate-se enquanto estiver quente. É a única maneira de dar-lhe a forma que o ferreiro melhor entender, é o modo mais acertado de ser forjado. Numa altura em que os cenários sobre repatriamento de capitais ilícitos aparentam estar muito aquecidos, sem amnistia possível, abre-se uma espécie de guerra aberta contra os nossos `Changs`- sim, que nem o de Moçambique e já lá chegaremos – e os resultados podem vir a ser muito desastrosos. As palavras do presidente do MPLA sobre o assunto, proferidas na última reunião do Comité Central, merecem análise de fundo. João Lourenço disse claramente que não haverá perdão para quem não repatriou dinheiro do Estado retirado ilicitamente para o exterior.

Na última edição impressa, no espaço do editorial, fizemos menção do que se acredita ser uma incursão contra os esconderijos dos dinheiros roubados, pois, e citávamos que o Secretário de Estado Adjunto do Departamento de Justiça dos EUA disse, aquando da sua recente visita a Angola, que o FBI vai ajudar na localização e recuperação de activos retirados ilegalmente do país, e que os EUA têm todo interesse em levar os corruptos à justiça e recuperar a riqueza retirada de forma criminosa. Quando John Sullivan assegurava que independentemente de onde estejam escondidos os dinheiros, seja no seu país, seja em qualquer parte do mundo, os EUA tem investigadores e promotores para descobrir os esconderijos, estamos diante de um cenário que antevê uma pesca furtiva, quando se alia este facto ao discurso de Lourenço. O que não se sabe ainda é se os EUA, aqui entenda-se o FBI, vão usar rede de arrastão ou anzol nesta avisada caça aos dinheiros.

Se o modelo for similar ao aplicado ao então ministro das Finanças da Moçambique, muitos políticos, gestores públicos, deputados, que eventualmente estejam na longa lista da PGR, poderão ser detidos no estrangeiro, num processo em que os juristas investirão tempo a debater sobre o conflito, ou não, entre as legislações angolana e internacional para tal enquadramento. O presidente do MPLA deixou claro que o seu partido não precisa de políticos, dirigentes, nem deputados, com perfil de Manuel Chang. Prefere um partido limpo, sem militantes com capital político sujo. O ferro está (e continuará) quente e as marteladas do ferreiro, entenda-se PGR, antevêem grandes surpresas.

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