Ecossistema do Poder

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Por Patrício Batsikama 

Dos clássicos

O sentido latim de “potere” é, ao mesmo tempo, capacidade e habilidade de aplicar a autoridade. A versão que aplicamos vem de Max Weber: relação entre A e B, onde um impõe ao outro uma forma de agir que voluntariamente não faria.

Georges Balandier apresentou novos paradigmas do Poder no seu livro sobre “Pouvoir sur scène” onde quem tem o Poder compartilha, em alguns espaços simbólicos, a sua autoridade.

Naom Chomsky encontrou semelhantes paradigmas na fenomenologiadas manifestações: “Poder na rua” e percebe que os governados ainda podem exercer paralelamente o Poder.
Ambos estudiosos indicam-nos que apesar da definição weberiana ter algum sentido, há novos factos que impõem a sua revisão.

O termo kratos que se associa a democracia, por exemplo, é emprestado na terminologia religiosa, onde a hierofania inferior leva as pessoas a acreditar em deuses e agir consoante o programa de cada um. Quer dizer, aceitar as regras do jogo.

Eu defino o Poder…

A minha definição para o Poder é um concerto das forças assente nas normas com intuito de organizar as pessoas e que, harmoniosa ou conflitualmente, compartilham os interesses diferentes e diversificados.

As diferenças que caracterizam a sociedade são salvaguardas pelas normas da concorrência social. Isto é, a pessoa aceita as regras do jogo, concorre com os seus capitais, mas tem a garantia que as liberdades inalienáveis constituem um espaço inegociável que nenhum tipo de Poder poderá desrespeitar.

Ecossistema do Poder

Emprestamos aqui a palavra forjada em 1935 por Sir. Arthur Tansley, mas utilizamos inicialmente o sentido que o deu o filósofo Edgar Morin quando ele reflecte sobre a sua teoria da complexidade e a sua leitura sobre os humanos que são totalmente biológico e totalmente cultural. O indivíduo que precisa de ser amado, daí a sociedade, assim como é o único reprodutor de si e da sociedade. Essa complexidade ontológica abarca, também, a gestão do indivíduo, da sociedade e da permanência da existência humana.

Isto é, o ser humano é um ser biológico, histórico, físico, cultural, económico, etc. O ser humano é um ser limitado. Não faria sentido isolar este ser complexo do Poder, tal como o define Edgar Morin: “pensamento político baseia-se no Homem, na Sociedade, na vida e no Mundo”.

O “mercado das forças” onde concorrem indivíduos e instituições constitui em si um sistema de base.
Os indivíduos – singulares ou agrupados – são “pessoas necessitadas” consequentes às instituições necessárias.

As necessidades são satisfeitas em formato de serviços ou bens que, caso forem adquiridos, os indivíduos tornam-se consumidores. Em caso destes bens e serviços serem criados, os indivíduos tornam-se produtores. Ora, é na base da gestão destas necessidades que nasce a dominação, o elemento catalisador do Poder. Isto é, a dominação define o balanço entre a produção e o consumo. Estamos aqui perante o sistema da concorrência no mercado.

Mas existe outro sistema que emana do próprio mercado. Ainda que as forças tenham a mesma pujança, o mercado dinamiza-se a partir de três imperativos que criam o desequilíbrio:

(1) qualidade/quantidade;
(2) experiência/habilidade;
(3) espaço/tempo.

As necessidades das pessoas estabelecem o barômetro que lhes permitem categorizar os bens e serviços, tanto que involuntariamente os integrantes deste “mercado das forças” são movidos por uma ordem que é assegurada pelo “sistema de hierarquia”.
Este sistema define a autoridade, impõe respeito/obediência para manutenção da ordem. Trata-se aqui do sistema da hierarquia. O terceiro sistema é de inter-dependência.
Há dois aspectos essenciais:

(1) as pessoas que são produtos sociais inter-dependem-se umas das outras, mas essa relação é regulamentada pelo sistema de concorrência, por um lado. Por outro, pelo sistema de hierarquia;

(2) os domínios complementam-se uns e outros, mantendo aceso o conflito inevitável proporcionado pela troca contínua entre as pessoas e as instituições que criem.

Esse sistema pressupõe que a existência em si se baseia numa pluralidade das necessidades das pessoas, diversidades dos domínios e multiplicidade de relações.
Esses três sistemas constituem unidades inseparáveis mas, também, unidades opostas: homem biológico vs homem cultural ilustra bem essa conflitualidade e inseparabilidade.
Desta feita, e visto que o Homem é a peça central do Poder, pensamos que os três sistemas que brevemente ilustramos sejam as unidades inseparáveis e conflituosas através das quais se constrói o Poder enquanto “concerto…”.

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