“Para se fazer um bom escritor é preciso muitos leitores”

Na sua visita a Luanda, José Eduardo Agualusa apresentou o seu mais recente livro “A Sociedade dos Sonhadores Involuntários”, que serviu de pretexto para um exclusivo com o Vanguarda, onde ficámos a conhecer o segredo da verticalidade deste ícone da literatura angolana, ou melhor, lusófona, que continua a inspirar várias gerações, o que se confirmou neste regresso ao país onde nasceu, com salas cheias de jovens a interagir com escritor.

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Por Ana de Sousa e Jucíria Rodrigues  

E porque não se faz um bom escritor sem ser um bom leitor, daquilo que tem acompanhado da literatura angolana. Qual é a sua opinião?

Acho que você está certíssima, para se fazer um bom escritor é preciso primeiro haver muitos leitores, é preciso formar gerações de leitores.

Então, acho que o grande desafio em Angola para se fazer uma literatura que se afirme no mundo, como é o caso da literatura da Nigéria, você tem de ter o acesso ao livro – curiosamente, muitos desses escritores são escritores que nasceram ou cresceram fora do país, ou seja tiveram o acesso ao livro fora do país -, isso também está acontecer em Angola, não há essa possibilidade porque as pessoas não têm acesso aos livros, as gerações que são colocadas na diáspora tem acesso aos livros fora do país, dentro do país isso só acontecerá, de forma estruturada se se investir no livro e na leitura, ou seja, acho que o governo angolano tem de fazer o que fez, por exemplo, o Lula durante os anos que ocupou o poder, a criação de bibliotecas públicas, apoiar as bibliotecas escolares, instalar bibliotecas nas comunidades mais carentes, e por aí. Portugal também tem uma excelente política de distribuição de livros, tem uma rede de bibliotecas públicas, que é das melhores do mundo, isso explica a vitalidade da literatura portuguesa contemporânea. Primeiro tem de se investir no livro. Não há outra solução. Acho é que nós podemos utilizar também as novas tecnologias ao nosso favor, não podemos ter bibliotecas em papel, custa muito dinheiro, podemos ter pequenas bibliotecas com livros eletrónicos, é fácil de dar formação e instalar bibliotecas desse tipo nas cidades angolanas, e é uma coisa que não fica caro.

Tem mais de duas dezenas de livros publicados, é possível dizer qual foi o mas difícil de escrever?

Não sei, acho que cada um tem a sua dificuldade. A ‘Rainha Ginga’ é o romance histórico que eu sempre quis escrever, acho que levei a vida inteira para o conseguir escrever, porque é um romance passado no Século XVII, que eu queria escrever numa perspetiva africana, e era preciso, não só conhecer as fontes, mas encontrar uma linha que era capaz de traduzir aquele universo tão distante do nosso. Cada livro tem uma dificuldade específica.
De qual mais se orgulha?
A mesma coisa, não te consigo responder porque razão gosto de um livro ou porque razão gosto de outro, será por razões diferentes, felizmente.

É um autor muito premiado, de todos os prémios qual foi aquele que o emocionou mas?
O que me emocionou não sei, quanto à importância, é óbvia, foram os prémios em Inglaterra, também porque ajudam muito nas traduções.

A ‘Teoria Geral do Esquecimento’ esteve na short list do Man Booker Internacional Prize, qual é o segredo desse livro, sabe dizer?

Não sei. O livro começou por não ter sucesso, foi lançado em Portugal de uma forma muito desastrosa, foi a razão pela abandonei a editora que tinha naquela altura, e, muito provavelmente, se não tivesse recebido esses prémios em Inglaterra, nem sequer teria vendido em Portugal. O sucesso fora despertou a atenção dos leitores em Portugal. Portanto, e assim são os livros, nós nunca sabemos porque que um livro corre bem ou mal, nem qual é o livro que vai correr bem, não tem como saber.

Quando escreve tem consciência de algures, no processo de venda, o livro lhe vá escapar das mãos?

Acho que temos que escrever unicamente pela paixão da escrita e não por outro motivo. Eu escrevo porque me dá imenso gosto.

Qual é a matéria prima dos seus livros, são sonhos inspiração ou a memória?

O Picasso sempre dizia: “espero que a inspiração enquanto trabalho”, ou seja, não há inspiração existe trabalho e quando estamos a trabalhar, de facto, há momentos de iluminação, coisas que vêm e nós não sabemos muito bem de onde, realmente, os melhores momentos são aqueles durante os quais nos esquecemos do que estamos a fazer. Quando estamos a escrever com muita intensidade há um esquecimento, acho que é uma espécie de transe.

O facto de ser um homem que viaja muito, que está entre Moçambique, Portugal e Brasil ajuda nesse processo criativo?

Olha, no sentido de que quando se viaja parte-se ao encontro de outras pessoas, de outros pensamentos, e tudo isso é útil, sempre ajuda.

Acha que hoje a sua identidade é um mix de tudo isto?

Evidentemente, a identidade é algo que a gente adquire caminhando, não é? A gente vai absorvendo tudo o que interessa.

Olhando para si, podemos ter a literatura Angolana, Brasileira e Portuguesa?

Não, acho que tenho um olhar que é moldado pela minha formação, que começa na infância e, portanto, essa infância não mudou, a infância é a idade que nos marca mais e essa é angolana, sim.

Acredita que os nomes impõem destinos?

O meu nome é um nome raro, é um arcaísmo da língua portuguesa, é utilizado no sul de Portugal, entre os marinheiros, e também no Brasil, é uma corruptela de água luzenta, água iluminada, uma palavra que os marinheiros usam para designar o mar quando está muito calmo e iluminado.

Se a minha paixão pelo mar tem a ver com o meu nome?

Pode ser, também não sei, tenho na família uma geração de marinheiros, pescadores, mas eu não sei.

Essa sua relação com o Mia é bastante antiga, mas não há um bocadinho de competição entre vocês os dois?

Não, Mia é o meu irmão mais velho, não tem isso, se ele ganha um prémio, eu ganho um prémio, e fico tão feliz quanto ele.

A vossa relação criativa ainda é de surpresas?

Como a minha relação comigo mesmo, eu ainda escrevo porque me surpreendo a escrever.

Está a trabalhar no seu próximo livro, o que retracta?

Estou a escrevê-lo agora e espero publicá-lo ainda este ano. Mas não gosto muito de falar de livro enquanto o estou a escrever, é um livro cuja acção se passa na ilha de moçambique durante um festival literário. Não sei como se vai chamar esse livro, não tem classificação é uma história muito estranha

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