Guerra na Líbia cria nova crise política em Itália

A coligação entre o M5S e a Liga, que sustenta o governo italiano, está cada vez mais instável. A eventualidade de a Itália ter de receber líbios em fuga da guerra civil é mais um tema em que os dois partidos assumem posições opostas.

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Por Jornal Económico 

Os confrontos na Líbia – onde ontem já haviam morrido cerca de 150 pessoas – alastram, em termos de efeitos colaterais, a Itália: o governo está perante o dilema de abrir as portas aos que continuam a partir dos portos líbios, ou manter o país fechado a qualquer tipo de auxílio. Para além da questão humanitária, o problema é, do ponto de vista político, mais grave que o que poderia parecer: é que os dois partidos da coligação estão prestes a entrar em ruptura por causa das suas posições antagónicas.

De um dos lados está o Movimento 5 Estrelas (M5S), que quer fazer com que o país retome a abertura dos postos ao recebimento dos refugiados que tentam chegar à Europa vindos da Líbia; e, do outro está Matteo Salvini, o ministro do Interior da Liga, que quer manter os portos fechados a qualquer entrada de estrangeiros, por muito que a guerra alastre ali a umas poucas centenas de quilómetros.

A líbia foi desde sempre um dos maiores contribuintes líquidos para a entrada de imigrantes africanos nos países europeus, mas, desde que o antigo líder Muhammad al Kaddafi foi derrubado e morto numa rua da capital por uma multidão enfurecida que as coisas tomaram proporções ainda mais alarmantes.

A falta de um Estado com força suficiente para controlar o tráfico de seres humanos é uma realidade e foi ali, por isso, que se instalaram as redes que fazem entrar ilegalmente na Europa os africanos que, tendo improvavelmente sobrevivido a todos os possíveis acidentes de percurso, conseguem chegar ao continente europeu.

Em Itália, a oposição entre os dois partidos que formam a coligação volta a colocar em evidência que o governo é politicamente muito frágil e que qualquer assunto é suficiente para fazer regressar o fantasma das possíveis eleições antecipadas.

De qualquer modo, para os analistas, esse ‘medo’ já se foi atenuando: o tempo é agora demasiado próximo das eleições para o Parlamento Europeu para que a Liga corra o risco de criar artificialmente uma tempestade política que possa derrubar o governo liderado por Guiseppe Conte.

É neste quadro que se percebe que a Itália tem sido um dos países europeus mais empenhados em encontrar uma solução para a guerra civil que vai alastrando na Líbia. Mas, segundo os jornais italianos, com poucas esperanças: Conte já se encontrou com vários agentes com interesses no terreno, mas não logrou qualquer avanço.

Aliás, neste momento as forças no terreno não parecem querer saber de qualquer acordo de paz ou de um cessar-fogo com efeitos imediatos. Aparentemente, os combates serão para continuar até que um dos lados seja o claro vencedor. “Estamos próximos de assistir a uma catástrofe humanitária”, disse Conte, citados pelos jornais italianos – dando nota de que a Itália está a sofrer desde já os efeitos políticos colaterais que se adivinhavam.

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